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MEMÓRIAS COMPARTILHADAS

  Para minha irmã, Andressa, que me provocou estas palavras. Minha irmã mais velha — muito mais velha do que eu — completou 31 anos no último dia 25 de fevereiro, enquanto eu, no auge da minha juventude, ostento o frescor dos meus 27 anos. A distância entre as idades é, obviamente, muito mais um delírio meu (alimentado pelo fato de que, quando eu cursava o começo do ensino médio, ela já caminhava para o fim da faculdade de Pedagogia) do que uma realidade fática. Essa minha irmã sempre teve muito gosto pelos aniversários, inclusive pelos dela — algo que ela nunca ocultou, mas, ao revés, revelou com gosto aos quatro ventos. A vida é mesmo para ser celebrada, bem sabemos. E, recentemente, reaprendemos a importância do hoje, do agora, do quando, do tempo em que se é, do presente do indicativo, do gerúndio, do que se faz, do que se está fazendo... Da vida vivida em conjunto, da vida vivida no individual — da vida. O luto é uma batalha silenciosa que, se nos faz não querer mais ver a c...

EXERCÍCIO DA ESPERA

  Sempre fui um sujeito estranho. Solitário, calado, quieto no meu próprio canto. Arrisco dizer que sempre me conheci muito bem, mas fui e continuo sendo desconhecido para os outros. Nunca me revelo por inteiro. Nunca sinto de forma escancarada. Nunca digo tudo o que a boca ensaia, ainda que hoje, um pouco menos calado, alguns me julguem sincero até demais. Penso que é difícil amar o desconhecido, devotar afeto àquilo que se enxerga apenas pela superfície. Mas me vejo, talvez com a arrogância de quem fala de si mesmo, como a superfície de um rio translúcido: a água permite vislumbrar o que há lá no fundo, abaixo da tensão superficial – desde que exista a disposição de olhar além do reflexo. Meu Avô era um homem disposto aos olhares. Ele era uma presença imponente: forte, alto, bonito e de voz grave. Nas palavras de minha Mãe, às quais faço coro, o nosso herói. Trazia consigo aquelas mãos enormes e rústicas, com os nós dos dedos grossos da ordenha, da colheita, do labor – da v...

GIGANTES DE SAL

Romper o silêncio e dizer, finalmente, o que está preso no escuro há tanto tempo que já cegou a qualquer luz, morreu, secou, murchou – dizer o que já não existe mais. Qualquer palavra, impensada e dita fora de hora, ganha contornos de morte, são a morte ou, quem sabe, apenas a imitam. Não sabe, não acerta, não define – mas desconfia. Observa, no televisor, o gigante de sal que atrai a hipertensa multidão. Qualquer vento seria capaz destruir o colosso, qualquer água o dissolveria – mas a multidão o envolve, o eleva, o protege. E o coração, num silêncio oco de choque e explosão, sofre enquanto aumenta, nos vasos sanguíneos, o volume de fluidos feitos de matéria podre, de palavras-morte, de sentimento vazio, de imoralidade. O gigante pisa sobre a multidão que o levanta: há baixas, mas são inevitáveis – dizem. A vida é instrumental. O sal, nos olhos, cega; nas narinas, sufoca; na boca, queima; na pele, sob o sol, arde. E as carnes, secas, aplaudem o milagre de, por desidratadas, não se...

13/1/2021

Neste décimo terceiro dia do ano, às dez da manhã, duvido. Tudo parece tão incerto, apesar de tão igual, que me faz questionar o tempo, o mundo e a minha permanência no vão dos dois, que é o lugar em que existo, em que quase existo ou em que inexisto – existir é o quê? Um estado de permanência da coisa no tempo e no espaço? É ser? É ter presença mais do que viva, presença-motriz? Ninguém sabe a real extensão daquilo que é e daquilo que está. Quem sabe se conhece o tamanho certo daquilo que foi? Passado é só uma história que cresce enquanto se esquece; futuro é quiçá, é talvez, é o que se almeja e não se toca; e presente é este indefinido agora, que em nada cabe e que em tudo está, é este delírio, esta esperança, este não-sei-o-que em parto constante, é o que não me sai, é quem sabe o próprio existir, a permanência viva que caminha ao mesmo tempo em que não se move. Sim, às dez da manhã ou mais, eu duvido: ao abrir as notícias; ao sair à rua; ao olhar para a primeira pessoa que me enc...

SE PUDÉSSEMOS

Se pudesses, soubesses, tentasses, quisesses ouvir-me, dir-te-ia todas as coisas far-te-ia o mais belo discurso explicando tudo o que, de mim, desejas saber, precisas saber, necessitas conhecer para crer em mim.   Mas não podes, não sabes, não tentas nem quer. Não tem ouvidos e eu, sem boca, sem gesto, modesto, indigesto – confesso não valho a tua atenção.   Mas, talvez, pelo sim, pelo não, deverias me ouvir.   Não falo só de dor nem só da brevidade não só de rancor nem só de caridade não sou só ensimesmado nem sou tão desapegado daquilo que sou. Eu falo do que preciso dizer e falo-te: preciso que me ouças ou enlouqueço-me e, talvez, tu também te enlouqueças ao ver-me sufocado com tudo o que não disse.   Se eu pudesse, tentasse, quisesse ou lutasse para te ouvir, talvez conversássemos e, no diálogo, confessasse a ti aquilo que sou e tu, se quisesses, dir-me-ia aquilo que é...

PLATÔNICO

Dar-te-ia minhas mãos sem medo se as quisesses Dar-te-ia o significado das minhas mãos nas tuas Dar-te-ia meu olhar, que pousaria em ti como, no mar, a lua Dar-te-ia o encontro do meu rosto no teu Dar-te-ia palavras que ninguém conheceu Dar-te-ia momentos Dar-me-ia a ti, se quisesses Doação incondicionada Integral Dar-me-ia em sonhos e, se pudesse, Sonharia contigo Dar-me-ia em beijos e, quem sabe, Seria teu abrigo Dar-me-ia em poesia, em expressão artística E, nessa minha fantasia, seria tua atração turística. Visitar-me-ia religiosamente Esperar-te-ia qual portas abertas Qual mãe paciente à espera do filho Faria da espera o meu estribilho Qual braços abertos carente de abraços Qual corpos inquietos à espera do laço Qual poesia, tal qual euforia Esperar-te-ia. Seria tua praia Tua biblioteca Tua viagem Tua permanência Tua companhia Ouvidos para tuas palavras O que tu quisesses Teu sol Tua lua Tua casa Tua rua... Não fujas assim. És, sim, um sonho És, sim, beleza E esta tristeza não ca...

O POEMA QUER SER FLOR

A incapacidade de dizer permanece, apesar destas palavras que, se dizem, não lavram se plantadas, não brotam se sensíveis, não tocam se significam, não traduzem. O verso é parte do universo, fragmento que é, não revela tudo o que sinto, o que minto. Por que ainda penso para versar? Por que não apenas escrever o que me vem como me vem? Para que lapidar o que já é, desde o princípio, lapidado? O que é, desde o início, carne e céu e terra e verbo e tudo? O que separa o escrever do estar mudo? Agora que digo, percebo que não é isto o que eu quero dizer. A incapacidade de traduzir-me, de me fazer entender, de revelar-me a mim... A incapacidade de transmitir-me, de me fazer crer, de refletir-me assim, tal qual sou... Tudo isso me assombra. O que me consola é o possível, embora não tão provável, milagre do verso cair como lágrima (de alegria, de dor... lágrima de muitas cores, sabores) como semente como chuva em uma terra talvez fértil em que, revirando-se ao avesso, brote e mostre o potencia...