MEMÓRIAS COMPARTILHADAS
Para minha irmã, Andressa, que me provocou estas palavras.
Minha irmã mais velha — muito mais velha do que eu —
completou 31 anos no último dia 25 de fevereiro, enquanto eu, no auge da minha
juventude, ostento o frescor dos meus 27 anos. A distância entre as idades é,
obviamente, muito mais um delírio meu (alimentado pelo fato de que, quando eu
cursava o começo do ensino médio, ela já caminhava para o fim da faculdade de
Pedagogia) do que uma realidade fática.
Essa minha irmã sempre teve muito gosto pelos
aniversários, inclusive pelos dela — algo que ela nunca ocultou, mas, ao revés,
revelou com gosto aos quatro ventos. A vida é mesmo para ser celebrada, bem
sabemos. E, recentemente, reaprendemos a importância do hoje, do agora, do
quando, do tempo em que se é, do presente do indicativo, do gerúndio, do que se
faz, do que se está fazendo... Da vida vivida em conjunto, da vida vivida no
individual — da vida. O luto é uma batalha silenciosa que, se nos faz não querer
mais ver a cor do mundo, também nos faz querer saber o mundo de cor.
O último 25 de fevereiro foi a primeira vez em que ela
comemorou o aniversário sem o nosso avô. Mas, se a presença física não pode ser
substituída, a ausência costuma ser amenizada pela lembrança, pelo afeto
compartilhado e pelo símbolo.
E foi exatamente em forma de símbolo que o dia 25
amanheceu para ela: como acorda cedo para trabalhar em outra cidade, minha irmã
precisa preparar uma marmita para se alimentar durante o dia — e foi justamente
essa marmita que um passarinho verde escolheu para pousar, logo cedo, na
cozinha, para quebrar o silêncio da ausência. Há quem veja nisso apenas um
acaso da natureza, mas nós sabemos reconhecer quando o invisível resolve dar as
caras: vimos nisso o nosso avô, à moda dele, dando um jeito de se fazer presente
para não perder a data.
Essa associação imediata ao nosso avô, ainda que
pareça tresloucada aos olhos de fora, tem razão de ser: quando minha irmã
exercia o magistério em Mococa e, por isso, morava na casa de nossos avós, era
ele quem levava, com zelo quase ritual, a marmita preparada pelas mãos de minha
avó até a escola em que ela trabalhava. Tal gesto, se já era visto com carinho
por quem o testemunhava, para minha irmã — que o vivia — era motivo de
sublimação, verdadeiro estado de graça.
Ela sempre viu em nossos avós um tesouro de medida
incalculável e, talvez por sabê-lo tão precioso, sempre carregou consigo o medo
de perdê-los, mesmo quando a perda ainda parecia morar muito longe de nós.
Mas a vida não segue agenda: acontece. Por isso
repito: há muita beleza em celebrar o que é e o que está — verdade que minha
irmã, do seu modo, sempre soube.
Meu avô vinha de um tempo em que a criação não prezava
pelas demonstrações óbvias de afeto e, por esse motivo, o cuidado contrastava
com um certo distanciamento que mantinha a postura do homem sério e firme.
Minha irmã, como todos os netos, desde criança, decidiu que implodiria esse
muro na base da insistência. Ela o cercava. Desfilava pela casa nos dias 25 de
fevereiro, recusando-se a dar trégua enquanto não sentisse o aperto de mão dele
e ouvisse a boca, por trás do bigode, formular “Feliz Aniversário, Andressa”,
em voz grave e melodiosa.
O tempo e a convivência podem promover mudanças quando
permitimos, e meu avô se permitiu: deixou que as marcas de sua criação se
dissipassem diante da presença dos netos. Aquele homem contido, que não era
dado a abraços, não apenas aprendeu a envolver, como passou a esperar por isso.
Ele se alegrava e apertava cada vez mais forte, como quem tenta recuperar o
tempo em que o afeto não cabia no gesto.
A insistência da minha irmã virou, então, uma rotina.
Todo mês de fevereiro, bastava a data se aproximar para ouvi-lo ensaiar o
calendário com a nossa avó: “dia 22 é o da mãe dela, e 25 o dela, né?”. E, logo
cedo, a recompensa de minha irmã vinha na forma daquela mão grande indo ao seu
encontro. Um toque mais áspero, calejado pela vida, mas de um aperto tão forte
e seguro que era capaz de inaugurar a alegria de todos os seus dias 25 de
fevereiro.
Lembro-me, também, do meu último aniversário. Eu não
me lembro de onde eu vinha nem para onde eu iria, mas me recordo perfeitamente
de que, ao me ver, ele sorriu e começou a me dar os parabéns. Quando eu pensei
em estender a mão para o seu aperto, veio a surpresa: meu avô, em vez de dar as
mãos, abriu os braços e me abraçou forte, como nunca havia feito antes. Isso
mexeu comigo naquele instante e, hoje, ainda mexe, como se fosse a despedida
que a morte, com suas urgências, não nos permitiu viver.
O maior legado do nosso avô talvez seja este: a capacidade de permitir que o tempo aja, que a mudança ocorra e que a vida aconteça sem nunca perder o essencial; a capacidade de ser família, de manter a união na paz e na guerra, de acolher e de ser acolhido. Por isto, os símbolos o evocam: porque ele, sendo quem foi, tornou-se para nós um símbolo do que devemos ser. Meu avô, desde muito cedo, precisou aprender a ser homem adulto. Apraz-me que, no final, perfeitamente consciente de si e do mundo, conservando a sua maturidade e suas histórias, ele morreu menino: enquanto ria e brincava com seu neto mais novo, era o Hulk, era o Batman... vida vivida até o fim.
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