DESINTEGRAÇÃO




I

 

Há sempre um vazio entre as coisas

Entre as coisas

Escoando estridente

Entre dentes

Um vazio

Umas coisas

Há sempre um espaço entre os corpos

Os corpos

Revelando a dor da gente

Indigente

Um espaço

Uns corpos

Há sempre um despertencer entre os seres

Os seres

Revelando nossa solidão

Só, no chão

Um não pertencer

Um não ser

Há sempre um quê ocioso no que é buliçoso

Ativo e preguiçoso

Começando-nunca-acabando

Uma vontade

Um esquecimento

Há sempre uma saudade da morte

Que arde, que é forte

Mostrando-nos o quanto somos sem sorte

Que sorte que nada... mas não vamos à estrada

Uma morte

Uma espada

Há sempre um motivo para desistir

Motivo para desistir

Cravado na pele da gente

Um motivo

Na pele da gente

E, de novo, o vazio entre a gente

Ocupado entre as coisas

Cravado nos dentes

Revelando a morte

Mostrando a sorte

Que é forte

Desistindo da dor da gente

Um vazio entre as coisas

Um vazio

Umas coisas


 

II

 

 

Esqueçam o vazio entre as coisas,

porque ele está todo em mim

doendo, roendo, comendo

ausentando, afastando...

Angustia-me esta falta

esta ausência

comendo

doendo

roendo

moendo

afastando

ausentando

Deixando-me à beira de saltar de dentro de mim para fora de qualquer coisa,

à beira de rasgar o meu corpo, por si mesmo rasgado

à beira de beijar a face abaixo de todas as faces

(a face real do irreal,

natural do sobrenatural,

imaculada debaixo das máculas,

maculada embaixo das máculas também,

a face-verdade, além das mentiras

face-fogo, queimando as vergonhas futuras, presentes e passadas,

face-primeira, originária

que nasce feita e que não se refaz

esconde-se em quilos de dissimulação,

enruga a pele,

mas que não é a pele,

que a pele repele,

porque não é o rosto, é só pó fixado na pele pelo suor,

pó sufocando os poros.

Mas o que eu beijo é a face original, real, verdadeira

– eu não quero outra).

Esqueçam o vazio entre as coisas, porque não há coisas

só há vazio, fastio.

Afasto-me de todas as pessoas e visto-me de todas as ausências,

abraçado e envolvido por todos os nadas.

Esqueçam o vazio, esqueçam meu nome,

esqueçam tudo que sabem das coisas

e, principalmente, tudo o que sabem de mim

– já não sou o que eu era,

eu já não era o que eu fui

e não há limites para o que posso ser:

entre nada e tudo, entre meu vazio imenso, entre não-sei-quê

eu cresço, eu encolho,

eu existo à beira de desistir de tudo, que é nada

à beira de construir todos os palácios,

à beira de vestir todas as misérias,

à beira de não ter pulso,

à beira de não ter corpo,

à beira de um salto,

à beira de um sobressalto,

à beira de nunca mais ser coisa alguma e tudo

à beira de ser mudo.

Definitivamente, esqueça-se de mim.


III

 

Sempre me haverá palavras entaladas na garganta

à espreita da voz,

ansiosas por sair

e ir dizer, a quem possa crer,

uma dúzia de pensamentos natimortos.

 

Sempre palavras na garganta entalada,

a voz capaz de nada

ou capaz de todas as incapacidades de dizer

capaz de todos os silêncios

de tudo o que não falo e guardo

capaz de todos os rancores

e de todas as dores morridas dentro do peito

mas incapaz de falar

incapaz de traduzir

insuficiente

voz morta.

 

Quem virá entender os pensamentos que silencio?

Quem virá atender os desejos que não digo?

Quem virá a mim depois que eu desaparecer?

Quem estará à minha procura?

O que será feito de minha memória quando o meu tempo passar?

Eu vou acabar.

Eu estou acabando.

Eu acabei.

Sim, acabei faz tempo.

Acabei antes que pudesse pensar estas palavras,

se é que as pensei

se é que não as joguei ou vomitei já nestas formas

já coaguladas

já incapazes de ir de mim a ti.

 

Estas palavras são um pedido de socorro

que ninguém jamais entenderá

ou será que poder-me-á decifrar?

 

Sabe o que querem dizer estas palavras?

O que digo quando digo tudo isto?

São mistérios até para mim!

 

Deus, apara-me, que não sei quem sou nem o que quero!

Nem quero dizer o que penso que sei querer

porque já disse e ninguém que me ouviu foi capaz de qualquer entendimento.

 

Faca em mim, estas palavras engasgadas.

Onde encontrarei auxílio?

Todos estão alheios à Verdade.

O que é, afinal, a Verdade?

 

Tudo o que não digo

– tudo me faz querer a morte!


IV

 

É como um  abraço, isto que sinto.

Isto que minto,

tudo o que faço,

mesmo o cansaço...

É como um abraço

que sufoca

que faz incomodar as ideias

que me aguça a sensibilidade...

é como um forte abraço

de morte – tema inevitável.


V

 

Ainda vale a pena conhecer o mundo,

embora não valha:

o sim e o não coexistem em mim

enquanto penso em qualquer coisa

como não estar aqui, mas no lá

constantemente lá

que é fora do meu campo de visão

e que, por isso, vale a pena ser conhecido.

 

Não ter apego a nada

não ter amigos nem família

não ter mulher e ter todas

não ter bichos domésticos

não ter amor por nada

nem vontade de amor por alguma coisa

não chamar nada de meu ou seu

esquecer as posses e os possessivos

olvidar as demonstrações e os demonstrativos

abandonar as atrações e os atrativos

não ter apego à língua nem a linguagem

não amar a imaginação nem a realidade

não decorar os traços alheios

não venerar a própria imagem.

 

Amar, talvez, uma árvore. Não!

Amar a sombra dessa árvore.

Saber que ela estará ali todos os dias

até que um raio a atinja e queime

ou que um machado a machuque e derrube

até que o fogo a destrua

até que o tempo a faça murchar

e, se fizer diferença... não fará diferença

porque o apego é à sombra, e não à arvore

e sempre haverá sombras,

dentro ou fora do corpo

dentro ou fora da alma

dentro ou fora do pensamento

 — a escuridão universal abaixo de todas as luzes

e acima de todas as cabeças

a falta universal

o abismo cotidiano e irreal, entre duas realidades

o espaço que falta e que se sabe porque é rodeado de duas presenças

luminosas ou não, reais.

 

Não ter apego à coisa alguma

não fazer amigos

não possuir livros nem palavras

nem interjeições nem sentimentos

não ter ouvidos, sons ou onomatopeias

não ter nada além do tempo... passado!

A interpretação do mundo,

a involuntária interpretação do mundo,

atrapalha a visão

— atrapalha o próprio entendimento que nunca temos

porque nunca temos nada, nem mesmo o eu

porque o caso reto já se extinguiu em mim há muito... tempo?

O que é, afinal, esta coisa-tempo?

Desapegar das horas!

Soltar da mão de todos os sonhos!

Esquecer as esperanças e, então,

só então,

finalmente

vir a ver

a querer

a saber

que a verdade oculta inexiste

porque a verdade nunca se ocultou

— não quiseram vê-la.

Libertar-se, por fim, da ideia da libertação

e viver.


VI

 

Tantas são as definições...

Tão inúteis, também!

Desfazem-se à passagem do tempo,

desmancham-se no primeiro contato com a realidade,

desintegram-se

reintegram-se

ou não.

Quem sabe?


VII

 

Esta coisa brasileira que eu sou

e este meu amor por esta Língua Portuguesa abrasileirada, como eu

que contém outras tantas que a compõem, dialetos que a fazem

como eu.

 

Como eu feito de vários outros dentro de mim,

que contenho e que me fazem.

Para ser um, sou vários

para ser eu, sou todos

e, por isso, posso ser tudo

e, por isso, posso esvaziar-me

quanto maior o número de peças,

maior a facilidade de perder alguma delas

— e eu me perco,

desmonto-me

arruíno-me.

 

E, como o falante às palavras,

reorganizo-me

em um eu outro,

eu novo,

como uma nova frase,

um novo verso,

um novo mundo.

 

Não era o verbo que, no início,

começava o universo?

Numa nova oração, há, pois, um novo mundo

numa nova organização, tenho, então, um novo eu.


VIII

 

E esta nova coisa que sou, serve para quê?

Para dizer-me outro,

                        novo?

Para dizer-me lançamento quando sou,

na verdade, uma reordenação dos meus próprios elementos?

Uma reciclagem humana,

uma reutilização da minha própria matéria,

uma redução da minha própria essência.

A novidade é um novo olhar para aquilo que sempre existiu.

Desde que existo, eu sempre existi;

desde que nasci, eis-me aqui, sendo eu

— sem poder ser outro, porque preso em mim.

Quem quer que eu seja, não serei outro:

por que, então, ser ilegítimo?

Por que, então, não ter meu ritmo?

Ao inferno com as formas!

Ao inferno com os modelos!

Sou eu o meu próprio molde-moldável-moldado-moldando

mudando-me

desajustando-me

desmontando-me

entregando-me a...

A quê?

A mim?

A Deus?

Aos meus?

Aos teus?

Aos dele?

À vida?

Derramo-me cotidianamente e não sei onde!

E preciso saber?

Tudo o que sei...

em quê me ajuda tudo o que sei?

Que seja!

Antes ser, antes ser!

Ainda que um pedaço de gente, ser!

O saber aprende-se sendo

e só sendo é que ele tem utilidade

                                         verdade.

Esta nova coisa que eu era, já mudou.

Do primeiro verso a este, quantos eu fui?


IX

 

Quantos fui desde que nasci?

Neste um, a que batizaram João Leonardo Sabino,

quantos couberam?

Quantos trago aqui, em mim?

Quantas crianças, idosos, adultos, meninos?

Quantos me trouxeram os anos?


X

 

Este verso necessita de fé em Deus.


XI

 

Se eu não tivesse assistido ao jornal, talvez eu estivesse em paz

Agora, porém, o tempo da paz já passou

A paz já não dá mais,

porque o sangue já me maculou.

 

Eu realmente queria que aquela moça não tivesse sido morta

ou que aquele jogador não tivesse sido morto

Realmente, não queria que o filho daquela mãe desaparecesse

e não gostaria que tantas pessoas morressem de morte artificial,

de morte elaborada por mãos (des)humanas,

Assassinato,

Assassino inato, natural.

 

Eu realmente não queria que tanta gente clamasse por violência.

Não era meu desejo que houvesse tantas pessoas morrendo de medo.

Mas, meu bem, eu vi o jornal e, após vê-lo, também temo

(pela vida, minha e alheia

por minha família que abandono e reencontro cotidianamente

e pela família que vejo vez ou outra

por meus amigos espalhados pelo mundo

envoltos de sangue sabendo ou sem sabê-lo).

 

Sair de casa com a crença de que retornarei a ela com vida: a isto, chamo fé.

A vida continuar, ainda que eu morra: a isto, chamo milagre.

 

E eu, verdade, não queria estar com medo...

nem com raiva,

nem com nojo,

nem com esta indignação

de ver gente embaixo de lama outra vez

(quantas mais?)

de ver gente envolta em fogo,

de ver a vida soterrada...

Não, não ver o jornal para não sofrer as dores coletivas

que me doem individualmente,

como se fossem só minhas,

como se fosse eu um pedaço de dor,

como se fosse eu um pedaço sem cor,

como se eu fosse – e talvez seja – um pedaço de alguma coisa.

Desintegração.

Destruição.

Desde não sei que dia até não sei quando,

pulsando nas telas dos televisores,

gritando nas páginas impressas,

falando nas bocas tristonhas,

chorando nos olhos órfãos,

a dor existe.

 

Se eu não tivesse visto o jornal,

talvez...

talvez nada mudaria.


XII

 

Este verso também precisa de fé em Deus, senão morre;

senão, escorre da página,

cai nos teus olhos,

molha e queima tua pele,

dói,

mas não te salva,

porque nem aquele verso nem este tem poder de cura

— não que eu saiba.

Estes versos não têm nada,

nem a mim.


XIII

 

O menino, em mim, está doente.

Em mim, o menino em crise.

Sente febre,

sofre de gripe,

o menino está suando frio...

Está se tornando adulto, também

— como o corpo, como as horas,

como a idade...

O menino quer morrer?


XIV

 

O que dizer deste que agora sou,

jogado ao vento?

Migalhas de mim em todos os ares!

Frangalhos de mim em todos os cantos!

Sementes de mim em todos os chãos.


XV

 

Se souberes o que estas palavras substituem,

substitua-as pela verdade que fingem ocultar.

Estas palavras são a transubstanciação da dor em poesia.


XVI

 

Estes versos sou eu.

Quem não percebeu?


XVII

 

A vida jorra por todas as paredes deste quarto escuro,

sem que eu veja.

Sem que eu veja,

envolve minha mobília, abraça meu guarda-roupa,

vomita-se por todos os cantos

e volta com pressa à própria boca

— rediz, refaz, perfaz.

 

Recomeça brotada do chão cimentado, azulejado,

sobe pelas fendas dos pisos,

evapora misturando-se aos gases,

invade as narinas,

chacoalha o corpo,

corre pelas veias, pulmão, coração,

deixa seus resíduos pelo corpo,

tanto eletrizando-o quanto matando-o

e esvai pelas mesmas narinas que entrou,

cai de volta no fedor do mundo.

 

A vida derruba as paredes da casa,

a vida desvirgina os sentidos,

penetra, perpetra, chega perto de...

fica a ponto de...

chega quase a...

 

A vida está a me matar com seu desrespeito diuturno

ao meu desejo de ser nada.


XVIII

 

Existe uma presença nos cantos da casa,

Uma presença certa nos cantos em brasa

Uma presença irrequieta que bate as asas,

Uma presença enigmática nos vértices da construção

Uma presença agora estática, no canto, no chão

Uma presença matemática somada ao pé do fogão

— E o fogão no canto da casa.

 

Existe uma presença que canta nos cantos do lar,

Uma presença-cigarra a nos enfeitiçar,

Uma presença-chocalho a nos afastar,

Uma presença melódica como burburinho no bar,

Presença-essência das coisas daqui,

Presença esperada no canto ali,

Presença-espada cravada no canto da casa.

 

Existe uma saudade no canto da casa

Uma promiscuidade, também nos cantos, em brasa

Uma esperança que bate as asas

Uma interrogação nos vértices da construção

Uma parte de mim atirada no chão

Um choro e um gemido de violão

Um coro e um estalido compõem a canção

E um tempo que corre sem direção

Na música se finda, existindo ainda

Mas longe daqui

Algures na vida

Lugares sem despedida onde o tempo é eterno.

 

Existe uma presença espalhada na casa,

Uma presença nos cantos entulhada,

Uma presença sem fim

Partes de mim

A música que é minha

Os sonhos que são meus

Tudo, nos cantos, fugindo da luz

Uma presença que tudo produz

Uma presença que ninguém conheceu.

 

Nos cantos da casa, eu.

 

 

 

 


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