13/1/2021
Neste décimo terceiro dia do ano, às dez
da manhã, duvido. Tudo parece tão incerto, apesar de tão igual, que me faz
questionar o tempo, o mundo e a minha permanência no vão dos dois, que é o
lugar em que existo, em que quase existo ou em que inexisto – existir é o quê?
Um estado de permanência da coisa no tempo e no espaço? É ser? É ter presença
mais do que viva, presença-motriz? Ninguém sabe a real extensão daquilo que é e
daquilo que está. Quem sabe se conhece o tamanho certo daquilo que foi? Passado
é só uma história que cresce enquanto se esquece; futuro é quiçá, é talvez, é o
que se almeja e não se toca; e presente é este indefinido agora, que em nada
cabe e que em tudo está, é este delírio, esta esperança, este não-sei-o-que em
parto constante, é o que não me sai, é quem sabe o próprio existir, a
permanência viva que caminha ao mesmo tempo em que não se move.
Sim, às dez da manhã ou mais, eu duvido:
ao abrir as notícias; ao sair à rua; ao olhar para a primeira pessoa que me
encontra e já me deixa – a primeira pessoa de passagem, a constante pessoa
passageira; ao escutar a primeira música do dia e sua primeira nota (o dó
constante); ao me banhar; ao responder à primeira mensagem que me chega em WhatsApp,
Direct e sabe-se lá onde mais... Eu duvido ao ver a primeira cara nua,
inexpressiva, afrontosa e já doente pela ignorância que apodrece de dentro para
fora. Duvido ao ver a morte, não a primeira, mas a inominada e inumerada,
aquela que já não se sabe, porque já se perderam as contas entre registros
gerais e indigências, entre causas naturais e desconhecidas, entre uma e outra
coisa, no vão de duas coisas, no não-lugar, no oco.
Neste agora, duvido dos que pedem e
esperam milagres. Duvido dos que não acreditam em milagres. Não creio naqueles
que zombam da ciência, da inteligência, do pouco que se sabe e que é o muito
que nos mantém. Não creio neste mundo que fede entre um e outro instante, e que
cheira a sangue, à indiferença, à negligência e a medo.
Reconhece o cheiro do medo? Esse cheiro
pesado, parado e sufocante? Esse cheiro áspero nos corroendo da narina para dentro,
nos dilacerando os pulmões? Esse cheiro vivo, amarelo ou verde? Esse cheiro
azinhavre? Esse cheiro-corrosão? Esse cheiro que exsurge do asfalto e das
calçadas, das casas e das pontes, de toda parte?
Reconhece o cheiro da indiferença, da
negligência? É um cheiro sem cor que exala das narinas e das bocas despidas da
turba insólita reunida nas praças, nas avenidas, nos bares, nos cantos e
recantos da vida. É um cheiro, talvez, de mau-hálito, de mau-hábito, de
ignorância escolhida e optada. É um cheiro de fogo queimando sem mãos que o
apaguem.
O cheiro do sangue se conhece bem. É
vermelho e pulsa escondido em nós.
Eu duvido desse dia decisivo e dessa hora certa
que não se diz ao mesmo tempo em que me enojo das brincadeiras com assuntos
sérios. Duvido, pasmado, incrédulo, das coisas que ouço nascerem de bocas ditas
importantes, mas que deveriam estar, por respeito ou por vergonha, caladas,
lacradas, costuradas, cerradas para não mais serem abertas.
Dói-me este mundo só dores.
Angustio-me sentado, sozinho, neste lugar
em que estou, neste meu espaço no mundo, neste meu tempo no mundo, neste agora
que me foi dado, neste parto sem fim que é meu, neste ser que está sendo
constantemente e que não cabe numa explicação definitiva, neste corpo e nesta
alma que mudam, neste agora duvidoso, neste espaço que não creio, neste corpo
que não sei.
Ao homem, quando foi feito, faltou alguma
coisa. E é este oco que carrega e que nunca se preenche que nos traz sempre a
incredulidade. Como crer num ser vazio? Num ser parasita? E a única quase
certeza que posso ter é a de que, muito certamente, sejamos nós os vírus de um
mundo doente que quer se salvar – tem febre e tremores; tem refluxos e dores.
Tenta criar anticorpos. Quem está imune da criatura inumana que somos?
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