SE PUDÉSSEMOS
Se pudesses,
soubesses,
tentasses,
quisesses
ouvir-me,
dir-te-ia todas
as coisas
far-te-ia o mais
belo discurso
explicando tudo o
que, de mim,
desejas saber,
precisas saber,
necessitas
conhecer
para crer em mim.
Mas não podes,
não sabes,
não tentas
nem quer.
Não tem ouvidos
e eu, sem boca,
sem gesto,
modesto,
indigesto –
confesso
não valho a tua
atenção.
Mas, talvez,
pelo sim, pelo
não,
deverias me ouvir.
Não falo só de
dor
nem só da
brevidade
não só de rancor
nem só de
caridade
não sou só
ensimesmado
nem sou tão
desapegado daquilo que sou.
Eu falo do que
preciso dizer
e falo-te:
preciso que me ouças
ou enlouqueço-me
e, talvez, tu
também te enlouqueças
ao ver-me
sufocado com tudo o que não disse.
Se eu pudesse,
tentasse,
quisesse
ou lutasse
para te ouvir,
talvez
conversássemos
e, no diálogo,
confessasse a ti
aquilo que sou
e tu, se
quisesses, dir-me-ia aquilo que és
e nos
socorreríamos,
suportaríamos,
amaríamos
e, assim, talvez,
vivêssemos.
Se pudéssemos,
quiséssemos,
tentássemos...
Poderíamos ser
ombro um para outro
para os choros
inexplicáveis.
Choraríamos em
silêncio
e, em silêncio,
sorriríamos.
Seríamos
ressurreição diária um para o outro e,
se isso fosse
pouco,
seríamos
fragmento de eternidade,
seríamos moradia,
alegria.
Seríamos nada!
E de nada
precisaríamos!
Seríamos tudo,
sem nos fartar de
nada!
Tu ainda serias
um ser único,
individual,
independente de
mim.
Eu seria um ser
único,
individual,
independente de
ti.
Mas nos
procuraríamos religiosamente,
mutuamente,
como quem sente
que algo falta à plenitude.
Seríamos
afluentes um do outro.
Se pudéssemos,
quiséssemos,
lutássemos,
tentássemos,
talvez amor e
amizade poderiam significar alguma coisa nova,
verdadeira,
real
menos
interesseira.
Ah, quem dera
pudesse ouvir-te.
Ah, quem dera
pudesse dizer-te!
Mas falhamos.
Ouve bem este
silêncio.
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