GIGANTES DE SAL

Romper o silêncio e dizer, finalmente, o que está preso no escuro há tanto tempo que já cegou a qualquer luz, morreu, secou, murchou – dizer o que já não existe mais. Qualquer palavra, impensada e dita fora de hora, ganha contornos de morte, são a morte ou, quem sabe, apenas a imitam. Não sabe, não acerta, não define – mas desconfia.

Observa, no televisor, o gigante de sal que atrai a hipertensa multidão. Qualquer vento seria capaz destruir o colosso, qualquer água o dissolveria – mas a multidão o envolve, o eleva, o protege. E o coração, num silêncio oco de choque e explosão, sofre enquanto aumenta, nos vasos sanguíneos, o volume de fluidos feitos de matéria podre, de palavras-morte, de sentimento vazio, de imoralidade.

O gigante pisa sobre a multidão que o levanta: há baixas, mas são inevitáveis – dizem. A vida é instrumental. O sal, nos olhos, cega; nas narinas, sufoca; na boca, queima; na pele, sob o sol, arde. E as carnes, secas, aplaudem o milagre de, por desidratadas, não serem terreno fértil para nenhuma matéria viva. Mais um homem morre sem merecer o olhar da multidão, que o pisoteia. Há, também, pessoas vivas que, por caírem, são pisoteadas e gritam: mas os aplausos e urros da multidão que saúda a criatura salina podem mais do que os gemidos daqueles que tombaram.

Olha e vê: percebe que muitos desconhecem as palavras que dizem. Para que pronunciá-las, então? Se as entendessem, talvez calassem, mas não possuem bagagem, conhecimentos prévios. São a realização daquilo que dizem que devem ser e erguem as bandeiras que dizem que devem erguer. Escravizados, sentem-se senhores de si mesmos: não saber é muito perigoso; acreditar que sabe é pior.

Há outros gigantes. À direita, à esquerda, ao centro. E há outras multidões, todas plenas de suas certezas e seguras de suas verdades. Elas se procuram, elas se encaram, elas se ofendem – mas não se enfrentam nem se chocam. Não se entendem. Os que pisam nos cadáveres não compreendem os que não pisam nas flores; os que ficam indignados com a podridão não entendem os que não têm reação diante do horror; os letárgicos não compreendem os enérgicos, sejam quais forem.

E ninguém percebe que já não há mais ideia, só ídolos; que não há mais propósito, só símbolos; que não existem motivos, só desculpas; que não há mais consciência, só culpas; que não é o gigante que cresce, mas a multidão que afunda; que o coração já não bate, retumba; que não há mais faca, só corte; que, na crueza dos dias, deságua um leito de morte – e quem sabe mais o quê!

E os gigantes de sal, aos poucos, transformam-se em gigantes de pedra. Muito mais pesados e resistentes, já não se desfazem à primeira brisa nem se dissolvem ao correr das águas.

Sob o peso das enormes criaturas erguidas com o suor do rosto alheio, a multidão vacila, fraqueja, tendo por base apenas um chão seco, desidratado, quente e queimado. A multidão tem fome e sede, doenças e dores, nudez e desamparo – e tudo o que têm denuncia o que falta: comida e água, saúde e assistência, dinheiro e moradia, amor e mais amor.

Olhando bem, vê-se gigantes menores atrás dos maiores. São ventríloquos contentes, marionetistas satisfeitos. Garantem que sua opinião, que é interesse, permaneça acesa nos hipertensos corações (que não importam se batem ou se param) das multidões.

A primeira multidão aplaude a alta nos preços, a alta na fome, a pandemia, a disritmia, os resultados e os discursos. O som dos aplausos se sufoca pelas vais da segunda e insatisfeita multidão, que é feita dos que sentem na pele, dos que morrem aos montes, dos que choram, dos que não sabem do dia de amanhã. A terceira multidão assiste ao espetáculo, salivosa, pensando em quem sabe um dia ter também essa coisa bonita, a que chamamos opinião.

E há, em todos os discursos, as expressões “vida”, “liberdade”, “dignidade”, “fé”, “amor”, “bem comum” – contudo, a ideologia dá significados distintos aos mesmos signos, de modo que não existe mais o que é dito, mas o que há por trás daquilo que se diz do fundo do poço, enquanto o tamanho da cova aumenta.

Vive-se um cabo de guerra. A corda vive se arrebentando – e sempre do lado mais fraco. A multidão cai ou enfarta, corpos sobre e sob corpos. Nova corda, também de sal. Nova guerra, novas quedas. Os gigantes crescem, os gigantes nos encaram, os gigantes nos devoram.

 

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