EXERCÍCIO DA ESPERA
Sempre fui um sujeito estranho.
Solitário, calado, quieto no meu próprio canto. Arrisco dizer que sempre me
conheci muito bem, mas fui e continuo sendo desconhecido para os outros. Nunca
me revelo por inteiro. Nunca sinto de forma escancarada. Nunca digo tudo o que
a boca ensaia, ainda que hoje, um pouco menos calado, alguns me julguem sincero
até demais.
Penso que é difícil amar o
desconhecido, devotar afeto àquilo que se enxerga apenas pela superfície. Mas
me vejo, talvez com a arrogância de quem fala de si mesmo, como a superfície de
um rio translúcido: a água permite vislumbrar o que há lá no fundo, abaixo da
tensão superficial – desde que exista a disposição de olhar além do reflexo.
Meu Avô era um homem disposto
aos olhares.
Ele era uma presença imponente:
forte, alto, bonito e de voz grave. Nas palavras de minha Mãe, às quais faço
coro, o nosso herói. Trazia consigo aquelas mãos enormes e rústicas, com os nós
dos dedos grossos da ordenha, da colheita, do labor – da vida. Os olhos, mesmo
cansados, tinham uma curiosidade infalível: ele notava. Ele sempre notava.
Lembro-me da infância. Nas
tardes da infância – quando os dias pareciam menos quentes, o sol mais ameno e
a vida mais leve –, eu me sentava ao portão e cumpria o exercício da espera,
olhando fixamente para a esquina, hábito que aprendi com a minha Avó. Esperava
meu Avô apontar no “pé” da esquina, sacola pesada no ombro, cumprimentando quem
aparecesse. A essa altura, ele, que tinha acordado de madrugada, viajado por horas
com a turma no ônibus rural, trabalhado o dia todo e enfrentado de novo a
estrada, adivinhava meus torcicolos antes que eu reclamasse.
E isso se manteve por toda a
vida. Quando eu, já adulto, demorava, ele percebia e questionava minhas
ausências. Ria de minhas loucuras, validava minhas renúncias... Mesmo sem
compreender a totalidade do meu mundo, ele se permitia o mergulho e visualizava,
tanto quanto podia, o que estava além da tensão superficial.
Meu Avô sabia do meu gosto
pelas letras, então puxava assunto sobre escritores, livros e gibis. Como sabia
da minha predileção por Bethânia, fazia questão de avisar quando ela aparecia
na televisão.
A linearidade não é um dos
atributos da memória que, mais uma vez, me faz cair na infância, quando o Herói
voltava do trabalho e trazia nos bolsos pedras que achava bonitas, só porque
sabia que eu gostava. Ele fazia o mesmo com galhos retorcidos. Quando o tempo e
a vida permitiam, fabricava estilingues e esculpia apitos que sopravam farinha
nos rostos desavisados, cúmplice silencioso das peças que eu pregava.
Mais recentemente, ele ouvia
com orgulho as minhas histórias de trabalho - e aqui residia uma grandeza de
beleza ímpar: ainda que os jargões e o grosso do direito lhe escapassem, ele
alcançava, com precisão absoluta, o fino da justiça. Entendia o cerne da coisa.
Comparava os meus relatos com as suas próprias experiências de vida,
demonstrando uma sabedoria que não se aprende nos livros.
Hoje, crescido, entendo melhor
o cuidado de minha Avó com ele. Compreendo a importância de ele chegar e
encontrar os banheiros desocupados para que pudesse tomar banho; a importância
de entendermos o sacrifício de acordar cedo e de, ainda assim, encontrar
espaços para existirmos sem as exigências. Entendo, também, o cuidado do meu
Avô com ela: as brincadeiras, o afago no cabelo, os elogios, o desejo de estar
perto. Nunca houve fenda ou contenda que os separasse. Acredito que nunca
haverá.
Defendo, com a certeza dos
tolos e a tolice dos sábios, que há coisas que a morte não é capaz de encerrar.
Há sempre aquilo que sobrevive, graças a essa memória confusa e não linear que,
não ocasionalmente, costura o pretérito e o futuro com as linhas do presente.
Eu sempre fui esquisito, agi de
forma repelente. Mas sozinho, nunca. Sempre tive quem me olhasse, enxergasse e
acolhesse, ainda que sem a compreensão do todo (que, débil ou são, ninguém
tem). Meu Avô foi um desses.
Muitas pessoas não imaginam a
dimensão do que meu Avô foi e é para mim. Figura de pai, de herói, de homem.
Imperfeito, como todos temos que ser. Inteiro, como poucos, de fato, são. Mas,
tudo isso que as pessoas sequer imaginam, é só uma parte de quem ele é – e faz
parte de quem sou.
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