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DESTAQUE

EU GIRASSOL

Como crianças atrás das pipas, corro atrás das melodias. Persigo as belezas poéticas que nascem dos fatos cotidianos e teço, com o que encontro, minhas alegrias e visto-me de novidade, teço-me numa nova idade e afasto-me do cansaço dos anos, dos enganos e aproximo-me de um eu não meu, mas lírico voz do poema, voz do poeta, voz do sonho mais idílico numa procura e perseguição constante ao inalcançável que corre na lágrima do rosto, lágrima que não se aguenta e que também tenta, saltada dos olhos, alcançar a beleza que ornamenta o mundo, que encanta o homem que nos toca ao fundo, que é chama que nos consome. Como os que correm atrás de pipa correm atrás das pipas, corro atrás das coisas bonitas, das coisas esquisitas, das coisas que espantam. Minha alma pequena persegue aquilo que canta e, nos cantos, se esconde para chorar, se esconde para cantar, para contemplar esconde-se para ser bonita também e perseguir, aflita, aquilo que acredita e tornar-se perseguidora de sonhos, construtora de sonhos, en…
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SAUDOSISMO

Aquele era o tempo da sede de nada
Em que eu observava o chão e a enxada
Que o trabalhador empunhava como se fosse uma espada
E cravava na terra até mesmo sem saber o motivo do gesto
E eu buscava o sentido dos atos, mas não encontrava.

Aquele era o tempo dos pés descalços
Abraçando a poeira, evitando os percalços
Sonhando sozinhos, desbravando caminhos
E eu na janela, como ela parado
Por dois mundos cercado
Olhando, pensando e esquecendo
E os mundos me vendo e eu nem notando.

Era o tempo dos silêncios que diziam
Dos olhares que acolhiam
E das palavras que eu dizia sem saber os significados
Porque as palavras não significavam mais que o nome que tinham
Porque as dores não doíam para sempre nos machucados
E os horizontes não se escondiam: se abriam
E sorriam tocando o fundo de mim.

Era o tempo da conversa na rua e eu dentro de casa
Da cabeça na lua e da esperança por asa
Da alma nua e da vida em brasa
Do futuro mais perto do que o presente de agora
E do sonho tão perto que parecia reali…

Sozinho, deixe-me sozinho

Sozinho, deixe-me sozinho Não percorras o caminho que há entre mim e ti, Não faças a travessia que há entre mim e o mundo, Não precisas estar aqui, Não precisas importunar o moribundo Deixe-o aqui, deixe-me aqui. Se te aproximares mais, podes te afogar No rio de lágrimas e lástimas do qual, sem querer, fui nascente E morrerás em vão, ainda distante daquilo que procuras Morrerás em busca de um doente, Morrerás contaminado e, uma vez assim, não mais te curas. Não, não venhas! Não, te contenhas! O caminho é perigoso, tortuoso e ingrato, Se chegares a mim, o que conseguirás? Iludir a ti e a quem te fala? Dar-te-á algum consolo invadir meu espaço? Não, nem venhas, porque um dia a voz se cala E o espaço se desfaz, restando apenas o teu fracasso De tentares, de teimares, de nadares sem saber, para, no fim morreres na praia. Existe, algures em mim, um lugar repleto de nada Não o invadas com a espada do amor Que só restará o desespero-mor De não jorrar nem sangue do corte que farás Espantar-te-á em vão se tentar…

Ultimatum

Bethânia declama o poema Ultimatum, de Álvaro de Campos, e dá uma interpretação impecavelmente maravilhosa à musica Movimento dos Barcos, de Jards e Capinan. 

Oceano

E eu sonho. 

As bolsas dos olhos transbordam a água

As bolsas dos olhos transbordam a água Quantas gotas compõem a lágrima? Quanta lágrima suporta a pálpebra? Quanta coisa cabe no âmago? Quanto frio suporta o estômago?
A dor é pungente no peito da gente Quanta dor nosso peito mente? Quanta felicidade se esvai impiedosamente? Quanto peito no leito repousa em paz? Quanta paz de tão vasta perturbadora se faz? O que nos seduz e reduz à lasciva condição? O que revela a nossa podridão?
O peso nas costas nos racha ao meio No peso, os medos, os julgamentos, os receios Tudo parece querer arraigar-nos no chão E, numa prece, pedimos direção Mas não há caminho – não há nada
E, nos passos solitários, a indignação E, nos momentos vários, a dissolução E, nas árvores, os canários louvam a vida Que é a mesma em mim nascida tão pouca Tão morta Tão vazia ao pé da porta
Vazia que nem eu

Onze horas da noite

Existe vida depois das onze horas? Onze da noite, digo. Existe? As ruas quase desertas trazem essa reflexão. Quase. Há sempre a misteriosa existência de uns ou outros que se esgueiram e se encaixam entre o breu e a luz amarelada de um poste que, em noites de chuva, faz as gotas d’água caírem douradas nas mãos abertas de São Francisco que olha para o céu com um pássaro no ombro como se fosse ascender naquele mesmo instante. Chuva dourada que cai vagarosa e espaçada, como se fosse fios de água, mais fios que os fios dos cabelos, formados pela união das metafóricas mãos das gotículas que, em queda livre, encontram no unir dos dedos a esperança de uma queda sem mortes – como se pudessem morrer, como se correr e ser macia não fosse o destino de cada gota, como se não fossem o mistério da reutilização mais bonito que a natureza dá ao homem, como se não fosse voltar nunca mais. A chuva vive, mesmo que tarde da noite, mesmo que de madrugada, mesmo quando não queremos. E as pessoas dormem. Há…