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SOBRE MIM

QUEM SOU EU?

Quem sou eu?
Sou a eterna interrogação
Lunático, só a ponta dos pés toca o chão
Fanático devoto da felicidade,
Embora nem sempre a encontre naquilo que faço.
Quem sou eu?
Sou um delírio meu,
Um eterno cansaço
Trajado de entusiasmo
E uma vontade de verdade
Que não se cansa, uma esperança
Eu sou o vazio, o abismo
A plenitude, a plataforma
Que segura a forma que sou eu
O equívoco que é meu
E olhar que é teu
Quem sou eu?
Sou a soma
Daquilo que sou de fato
Com o que há de ti em mim
Com o que pensas de mim
Eu sou eu
E sou o absurdo cravado em tua pele
Quem sou eu?
Brasileiro de fato
Descontente nato
Com a corrupção que
Ensanguenta a nação
De belezas naturais
De tristezas tais e quais
De risos e de alegria
De alienação e folia
Quem sou eu?
Filho de minha terra
Que me inicia e que me encerra
Sou o princípio de mim
Construindo-me, buscando o fim
Sou de Mococa, sou a Mococa
Sou rio que no mar desemboca
Quem sou eu?
Continuação dos meus
Sou a pujança de minha avó
Que, num nó, emaranha-se às histórias de meu avô
Nos passos de minha mãe, eu vou
O cuidado de minha tia, eu sou
A graça e a raça de meu tio que me contaminou
Sou eterno guerreiro por meus irmãos
Somos escudo e corrente quando unimos as mãos
Sou seus risos, suas raivas, seu gás, seus ais
Sou deles demais
Sou mais
Sou para sempre
Sou jamais
Sou o avesso do erro de meu progenitor
Sou, de mim, descobridor
Sou meus amigos
Sou aqueles que trago comigo
E com os quais eu vou
Sou eles, deles, por eles
E, até por ti, eu sou
Quem sou eu?
Sou todo meu
Sou meus amores
Minhas dores
Minhas cores
Meus sonhos
Meus dias tristonhos
Minhas fantasias
Minhas harmonias
Sou dicotomia
Mil de mim em mim
Sou o princípio de um mundo
Que em mim foi iniciado
Em meio a tantos outros
Quem sou eu?
Minhas dúvidas, minhas dádivas
Sou reminiscências de minha terra
Sou a imitação de um poeta
Sou um poema caduco
Sou a falsa liberdade
Sou amor (im)próprio
Sou Autorreferência
Sou sino dos ventos
Sou hino ao avesso
Sou desabafo paradoxal
Sou devaneios
Sou amores imperfeitos
Sou irregular
Sou fome de justiça
Sou sob medida
Quem sou eu?
Sou eu
Eu
E
Gosto de ser assim
Sim
Eu em mim
Sem fim
Vazio entre as coisas
Reconvexo
Gita
Machado ceifando desagrados
Amado sempre encantado
Pessoa sempre em construção
Lis despetalada caindo no chão
Sou aquele que sorri lendo Drummond
E se agita decifrando Dostoievski
Sou aqui
Sou agora
Sou a hora
O que eu não sou?
Não sou poeta
— Sou poesia

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Caminhada da Fé

Ah, almas tantas! Resolveram, todas, caminhar rumo ao céu – e essa caminhada não permite apego àquilo que julgam ser seu, é preciso se desvencilhar de tudo e apegar-se ao motivo primeiro que fez com que estivessem ali: a fé. Ah, almas tantas! Cantam, intercedem, prosseguem! E que há de ser feito, senão prosseguir? A vida não nos permite paradas – nem frente às dores, aos medos, às desesperanças e ao cansaço: os olhos se lançam ao infinito, redescobrem horizontes, enxergam motivos para continuar. Ah, almas tantas! Estão no chão, mas é para o alto que saltam, é o alto que buscam – e o alto é bem aqui, dentro de mim, no mais profundo e não na facilidade da superfície, no âmago. Por que seguem juntas? Porque uma é sustento para a outra e, também, se a uma faltar a energia, a força das demais é suficiente para mantê-la de pé. Há almas nas janelas que assistem as outras passarem – e, por assistirem, passam com elas. Com elas, velas e rosas para abençoar a passagem dos demais: são almas …

Cansado, outra vez

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Àquela mulher

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