METAFÍSICO



Ainda não sei em que consiste a vida,ainda não sei viver.
A essência do meu tempo – despedida
o sabor da existência – renascer
o querer andar em terra firme – segurança
sem saber como poder sobreviver.

A essência da minha vida
consiste em reviver
sem que eu, porém, saiba
o que é a vida para, despedindo-me,
retornar
para, morrendo, ressuscitar.
Como refazer o que não foi feito?
Como reviver se não vivi?
Como transmitir sem existir?
Como prosseguir sem começar?

Não, não revivo:
vivo apenas.
Apenas?
Ou milagrosamente?
Como quem não sabe por que razão acorda
mas procura a razão no ar
além da porta
no abrir das janelas
no sair às ruas
no gorjear dos pássaros
– e não a encontra.

Vivo da sem-razão de viver
Vivo do ver para crer
Vivo pelo prazer que, às vezes, vem
Vivo pelo horror dos que não têm
onde cair
Vivo para que, algum dia, tenham esse lugar
e, mais, que tenham forças para levantar.

Vivo das lágrimas que choro,
não de fraqueza, mas de medo
da finitude e da infinitude igualmente
das dores, das doenças – e não somente:
medo dos amores, das tristezas, do amanhã
que, repito a mim, talvez não venha,
mas que me veio ininterruptamente por vinte e um anos
e alguns meses, e alguns dias.
Vivo por minhas fantasias tolas
por minhas escolhas cegas
e por meu amor vidente
vivo pelo que meus olhos veem,
vivo porque minha alma sente.

Em que consiste a minha constância, eu não sei.
Mas permaneço firme,
balanço, quase cedo
mas continuo.
E é esta a salvação.

- João Leonardo Sabino

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