INTROSPECÇÃO
A mim, denunciaram-me meus receios
e, então, descobri-me.
Por trás destes olhos cheios,
lavados muitas vezes, vi-me
mas não pude crer em mim.
A minha sede se fez maior
a procura, mais incessante
o desejo renovou-se
manifestou-se a cada instante.
Entristeci-me, é verdade
mas a chama ainda arde
e o impulso me empurra
ainda me leva
a lugares relevantes
e só meus, em mim.
Porque a mim me denunciaram os meus receios
encheram meus olhos de pó,
depois de água,
depois de sal,
depois de nada
e eu me vi no reflexo
no canto da alma
atrás das inquietudes e incertezas
debaixo das fraquezas da carne que cresce, murcha e apodrece
além dos medos
Lá estava eu, um pedaço inteiro de alma pequena
teimosa
bonita de se ver
bonita de se ter
bonita.
Cintilava, atrás de tudo, debaixo de tudo,
ciente, mas aquém do mundo
porque sabe que vai durar depois do fim do eu corpóreo
do eu por vezes moldado pelas circunstâncias
do eu apequenado para caber numa realidade que não quis
do eu amuado por tudo aquilo que não fiz
e engasgado das coisas que, por algum motivo, não se diz.
E a alma, que é eterna
quer, também, continuar terrena
um pouco mais
para ter, ainda, primeiros momentos
primeiros novos beijos
primeiros novos amores
primeiros raios de luz queimando a face
primeiro lufar do vento a rachar os lábios
primeiros vinte, cinquenta, oitenta anos
primeiras novas esperanças
primeiras novas crianças
novas alianças
novos inícios.
Só essas coisas elevam uma alma ao céu.
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