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SAUDOSISMO

Aquele era o tempo da sede de nada
Em que eu observava o chão e a enxada
Que o trabalhador empunhava como se fosse uma espada
E cravava na terra até mesmo sem saber o motivo do gesto
E eu buscava o sentido dos atos, mas não encontrava.

Aquele era o tempo dos pés descalços
Abraçando a poeira, evitando os percalços
Sonhando sozinhos, desbravando caminhos
E eu na janela, como ela parado
Por dois mundos cercado
Olhando, pensando e esquecendo
E os mundos me vendo e eu nem notando.

Era o tempo dos silêncios que diziam
Dos olhares que acolhiam
E das palavras que eu dizia sem saber os significados
Porque as palavras não significavam mais que o nome que tinham
Porque as dores não doíam para sempre nos machucados
E os horizontes não se escondiam: se abriam
E sorriam tocando o fundo de mim.

Era o tempo da conversa na rua e eu dentro de casa
Da cabeça na lua e da esperança por asa
Da alma nua e da vida em brasa
Do futuro mais perto do que o presente de agora
E do sonho tão perto que parecia realizável
E não importava a passagem da hora
Não importava o valor, o estimável
E era aquilo, o sentimento, e só.

Aquele era o tempo em que eu não sabia dos sentimentos
E vivia sem sabê-los, sem lê-los, sem contê-los
E, verdadeiramente, me escondia
E, simbolicamente, tapava os ouvidos
Pois naquele tempo eu sabia:
Certos dizeres desgostosos que ouvimos não são olvidados
E estão sempre ao nosso lado, pesados
Culposos, cravados.

E já havia o estresse,
Já fazia minhas preces,
Já sentia o cheiro da morte,
O cheiro, a cada dia, mais forte
Que amarga a boca,
Que escasseia a voz,
Desintegra-nos
E nos deixa lançados diante de nós
Com a culpa e a graça de sermos quem somos
Sem sermos, sem vermos, sem sabermos que somos.

E ecoa, eterno, o pedido de socorro
Que pede que alguém me salve de mim
Porque, a cada instante, escorro
E procuro o caminho do fim.
E, ao mesmo tempo,
O desejo do esquecimento
Esquecer-me de mim, esquecerem de mim
E sentir-me em paz, sem mais
Livre de toda a gente
A corja dos indiferentes
Dos desgraçados que estão cravados em mim,
Os desgraçados em mim
Que me distanciam de quaisquer coisas que se coloquem diante daquilo que sou.
Arranco minhas asas, não mais voo
Sem saber que não passou o tempo dos sonhos
Sem saber que a flor em mim desabrochará a qualquer instante
E brotará, incólume, no vão que há entre cérebro e coração,
Ascenderá ao céu, acenderá o céu
Pôr-se-á em chamas
E rogará pelo que a alma clama
Eternamente em brasa aos pés de Deus
Que roga, roga pelos meus
Mas não tem pena de mim
E me chama para o fim.
O fim... começo de mim.

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