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Onze horas da noite

Existe vida depois das onze horas? Onze da noite, digo. Existe? As ruas quase desertas trazem essa reflexão. Quase. Há sempre a misteriosa existência de uns ou outros que se esgueiram e se encaixam entre o breu e a luz amarelada de um poste que, em noites de chuva, faz as gotas d’água caírem douradas nas mãos abertas de São Francisco que olha para o céu com um pássaro no ombro como se fosse ascender naquele mesmo instante. Chuva dourada que cai vagarosa e espaçada, como se fosse fios de água, mais fios que os fios dos cabelos, formados pela união das metafóricas mãos das gotículas que, em queda livre, encontram no unir dos dedos a esperança de uma queda sem mortes – como se pudessem morrer, como se correr e ser macia não fosse o destino de cada gota, como se não fossem o mistério da reutilização mais bonito que a natureza dá ao homem, como se não fosse voltar nunca mais. A chuva vive, mesmo que tarde da noite, mesmo que de madrugada, mesmo quando não queremos. E as pessoas dormem. Há culpa nisso? Quando o céu se derrama, o corpo pede cama: lei universal. Alguns resistem. Mais pela vontade do encontro que pela pouca vontade de dormir, mais pela fome que têm do outro que pelo apetite que têm pela noite. Ou estou equivocado? Como pôr na balança e encontrar as palavras justas se é tudo tão desmedido de grande na gente? Comedir? Descomedir? Quem sabe? Ainda não encontrei o universo das respostas.
Há poucas, raras pessoas acordadas. Nas casas, poucas luzes acesas. Onde fica quem resiste com as pálpebras abertas? Como chove, ficam dentro ou debaixo de alguma coisa: lanchonetes e quaisquer outros lugares que vendam comida, pontos de circular, guarda-chuvas... menos do que raros são aqueles que, desmunidos de proteção, rasgam a noite e desfazem o vazio deixando-se lavar de corpo e alma – ou apenas se molham pelo fato único de não possuírem escolha ou para disfarçar lágrimas: eles que sabem. E têm sempre um brilho no olhar, um brilho alegre ou triste – radiante ou que brilha sem brilhar, mistérios da vida, mistérios da noite. E a chuva sempre a cair, eterna até que acabe, dando brilho ao chão como se este estivesse banhado de pequenos cristais de luz própria que clamam por olhos para olhá-los. E a luz oscila, bruxuleante, mas veloz, dando sentido aos olhos que dão caminho aos passos que dão lugar às pessoas. Há sempre uma presença certa em algum lugar errado, uma presença errada num lugar certo e, presumo, todas as combinações possíveis de erro e acerto que se perdem nas ruas, nas casas... todos cheios de histórias próprias, todos vazios de alguma coisa também, todos vivos, todos com sua parcela de morte escondida no corpo que se fragiliza e nas células mortas que são repostas, repostas... até não serem mais, até não serem mais que um amontoado de comida para ácaro. E vive-se. Nas vinte e quatro horas do dia, vive-se – como se não houvesse outra opção ou porque há outras, mas viver é a que convém. De que nos vale desejar a morte? Isso já não está morto? Respostas, onde se escondem? No mistério nosso de casa dia? Nas horas que avançam incólumes? Na mudança que existe sem pena? No vero sonhar? Em mim? Em algum lugar aqui, ali, depois de daqui e depois de ali.  Em algum lugar às onze da noite, quando o inferno e o céu sorriem, na ponte que liga hoje e amanhã, na travessa travessia que é o caminho, que é o que importa.
E a chuva cai. A chuva caiu. Cairá? Em algum momento sim, no oportuno. E ensinará e dará a vida à vida, mostrará como se reergue a existência. A chuva busca o solo para que a matéria cresça, para que a matéria fique mais próxima do céu. E o céu é às onze. Onze da noite, repito. O céu é eterna onze horas, o eterno quase, o eterno sorriso. Existe vida depois dessa hora? Nas ruas, poucas. Nas casas, várias. E todos estão a sonhar, a unir, a gozar o dia de amanhã, a conquistar, a esquecer..., mas vivos, ainda que morram lenta e saudosamente sem saber que a juventude caminha ao contrário do tempo e do corpo: ficamos mais jovens com a idade, mais sagazes. A vida nunca acabou na velhice: termina na infância, onde começou – na mesma dificuldade para andar e falar, no mesmo trabalho para comer e, ainda que o corpo resista forte, há sempre um traço de criança no olhar daqueles que já envelheceram, uma inocência obscena-ingênua-singela de quem já viveu muito, mais ainda sabe que sabe pouco. A vida começa e acaba na infância, infâncias distintas. Mas sempre as onze. Da noite. Na noite. Quando os pelos do lobo-homem começam a eriçar. 

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