1° DE ABRIL
Hoje comi mentira no café da manhã e
quase acreditei
Saí na janela, o vento me enganava
com seu jeito de dançar nas folhas
Procurei o sol e, embora ele houvesse
dito que não havia perigo, me queimei
Um prato de mentira, ao meio-dia,
almocei
Fui fazer sesta, quis descansar e me
cansei
Saí na janela, o vento me enganava
dizendo que minha vida era cheia de boas escolhas
Acreditei
Tomei mentira no café da tarde,
tarde notei
Liguei a TV e diziam que o governo
anda bem, acreditei
Digeri mentira na TV e nem notei
Disseram-me que o sonho vale a pena,
sofri e não sonhei
Falaram que era de plumas a cama de
pregos, eu me deitei
Veio uma pessoa sedutora e me chamou
de rei
Esqueci de meus farrapos, acreditei
e me doei
A pessoa foi-se embora e, agora,
solitário fiquei
Na janta, serviram-me verdades e,
desacostumado, não provei
À noite o céu me veio e, sem receio,
lhe falei
Ele não me deu ouvidos e,
ressentido, o abandonei
Tentei ser de verdade num mundo de
mentiras – mas falhei
Se nem a vida existe, quem resiste?
Eu não sei
Depois me veio o sono e eu, sem
dono, a ele me dei
Trouxe-me pesadelos terríveis,
mostrou-me quem eu era – me fechei
Adormeci mentindo e, embora
tentasse, não me enganei
A mentira é sedutora, tentadora – eu
me tentei
Mas eu sabia da contrariedade de
tudo o que acreditei
Acreditei desacreditado e,
assustado, duvidei
Que mentira é maior que acreditar
que me enganei?
Não sei.
Comentários
Postar um comentário