POEMA CADUCO
Trago nos braços lassos meus
fracassos
Trago nos olhos refolhos um céu
opaco
Nos pés, caminhos avessos a mim
No peito sem jeito, o sangue carmim
Na cabeça travessa, saudades do fim
Nos ouvidos feridos, um eco
estridente
Na boca caduca, nem língua nem dente
Nas pernas sempiternas, não míngua a
dor ardente
(Mas, se é eterna a perna, é maior
que a dor da gente)
Nos glúteos idôneos, palmadas de
outrora
Na hostil genitália, o prazer e a
represália
Na alma, de agalma, resquícios de fé
O homem, tão rude, se faz um Mané
No nariz, infeliz, um triste odor
Que se mistura, que agrura, à falta
de cor
Na pele se sente a infinita dor
Na boca, tão morta, um leve amargor
No ouvido o temido gemido de amor
E, todo dia, a mágica sinestesia
vira ao avesso a paixão
E faz o coração, faz o dia, faz a
vida, faz o estupor
Que vira, revira, faz carne, faz
alma, faz o que for
De mim, de ti, do outro, do desgosto
Da vida que, sem saída, se esvai
E, num posso sem fundo lá do fim do
mundo
C
A
I
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