DESABAFO PARADOXAL
A dor é cotidiana: trago uma faca simbólica cravada no peito
e ela parece se contorcer toda dentro da carne fria, como se procurasse e
encontrasse conforto na coisa dilacerada que faz da minha forma que não é outra,
senão a de atropelado – deformação na coisa que é, por natureza, deformada:
espanto – dele, o canto (que é a tradução, ainda que equivocada, daquilo que eu
vi e senti, mas não aprendi e, por isso, não sei dizer).
O cheiro de bosta no ar também se tornou coisa diária:
anuncia a podridão do mundo, dos mundos. É como se a vida nascesse de um esgoto
a céu aberto para, por desaforo, demonstrar toda a sua força que é capaz de,
nas porcarias, fazer-se nova e bela, ainda que contrária às aspirações do que
escreve – é ela a faca que me acerta o peito como as que acertam os porcos,
prenunciando o grito agudo e longo de quem parte sem querer partir e a tristeza
de quem fica sem querer ficar. A vida é quem me suga a vida, porque ela quer
desocupar o espaço para o novo que há de vir: o nascimento é tudo o que ela
esperava de mim – agora, espera que eu padeça: eis o susto, o surto, o absurdo.
A dor e o fedor são cotidianos, mas não estragam a beleza
dos dias. Há sempre uma esperança escondida no desespero, uma fé cega e
cortante que conduz à luz mesmo sem enxergá-la. Mistério. Segredo. Degrado.
Degredo-me. E o espanto continua a borbulhar no peito, crescendo, avolumando-se
tal qual leite quando ferve, até que transborda: escrevo. A dor existe é para
me tirar de mim e me pôr no mundo do qual eu fujo, traz-me de volta, liberta-me
do que sou. A dor, o fedor e o incômodo trazem-me o susto que me faz procurar
algo em que me sustentar: devolvem-me a capacidade de enxergar a beleza da
vida. Paradoxo? Contradição para satisfazer loucos? Para desespero geral? Para
violar o bem e o mal? Para mim. Isso me basta.
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