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Desabafo Paradoxal

          A dor é cotidiana: trago uma faca simbólica cravada no peito e ela parece se contorcer toda dentro da carne fria, como se procurasse e encontrasse conforto na coisa dilacerada que faz da minha forma que não é outra, senão a de atropelado – deformação na coisa que é, por natureza, deformada: espanto – dele, o canto (que é a tradução, ainda que equivocada, daquilo que eu vi e senti, mas não aprendi e, por isso, não sei dizer).
          O cheiro de bosta no ar também se tornou coisa diária: anuncia a podridão do mundo, dos mundos. É como se a vida nascesse de um esgoto a céu aberto para, por desaforo, demonstrar toda a sua força que é capaz de, nas porcarias, fazer-se nova e bela, ainda que contrária às aspirações do que escreve – é ela a faca que me acerta o peito como as que acertam os porcos, prenunciando o grito agudo e longo de quem parte sem querer partir e a tristeza de quem fica sem querer ficar. A vida é quem me suga a vida, porque ela quer desocupar o espaço para o novo que há de vir: o nascimento é tudo o que ela esperava de mim – agora, espera que eu padeça: eis o susto, o surto, o absurdo.
          A dor e o fedor são cotidianos, mas não estragam a beleza dos dias. Há sempre uma esperança escondida no desespero, uma fé cega e cortante que conduz à luz mesmo sem enxergá-la. Mistério. Segredo. Degrado. Degredo-me. E o espanto continua a borbulhar no peito, crescendo, avolumando-se tal qual leite quando ferve, até que transborda: escrevo. A dor existe é para me tirar de mim e me pôr no mundo do qual eu fujo, traz-me de volta, liberta-me do que sou. A dor, o fedor e o incômodo trazem-me o susto que me faz procurar algo em que me sustentar: devolvem-me a capacidade de enxergar a beleza da vida. Paradoxo? Contradição para satisfazer loucos? Para desespero geral? Para violar o bem e o mal? Para mim. Isso me basta. 

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Carpe diem

O tempo não existe.
Como podereis dizer que o tempo passa
Só pela aparência que muda,
Pelo Sol que se esconde
E pelas mudanças climáticas?
Como podereis afirmar que passa o tempo
Só pelo que foi transcorrido,
Pelo que foi esquecido
E pelas horas trágicas?

O tempo, hum, ele não existe.
Não existe, também, a vida;
Não existem os sonhos;
Não há caminhada nem há olhos tristonhos
— Mas a tristeza existe.
Há a coisa chamada felicidade, também;
Há o medo;
Há o descaso e o desdém.

O tempo não existe.
Não há senão a grande ilusão da existência
Que se equilibra entre a razão e a demência,
Entre a pureza e a indecência.
Quem dera fôssemos só loucos e indecentes!
Quem dera chupássemos os dedos,
Esquecêssemos o medo...
Quem dera chorássemos pura e exclusivamente por vontade de chorar,
Cantássemos sem a preocupação de desafinar,
Despíssemos nosso corpo no meio da rua
E, voltados para a lua, puséssemo-nos a uivar!

Mas a consciência não existe,
Só as regras persistem em d…

SINAIS DOS TEMPOS

Os olhos foram comidos Comidos foram os ouvidos Costurada a boca Roubados os sentidos A coisa agora é outra A coisa agora é rouca É louca a coisa pouca É tanta gente trouxa É tanta mente vaga E as vagas andam poucas A inteligência vazia Sucumbe à tecnologia E um smartphone sabe o que não sabe o homem E, no mundo, há tanta fome E tantos que descartam o que nem consomem E tanto homem no ponto Sentado feito tonto Esperando seu ônibus chegar Rodeado de tanta gente Incapaz de conversar E, se conversa, mente: Em quem se pode acreditar? E o ouvido no fone E os olhos na tela E o toque é touch E o touch é screen Alguém, por favor, olha para mim Que olhos? No rosto duas marcas cicatrizadas Alguém, por favor, diga algo para mim Que boca? A agulha costura o silêncio Alguém, por favor, dê ouvidos para mim? Que ouvido? Há tempos já foi consumido
É o fim.

Discurso Fúnebre

O amor sem esperança não tem outro refúgio senão a morte. (José de Alencar)


Não sei o que queres de mim Não sei se me queres assim Não sei se é este meu fim: Morrer por amar-te, Ser o brim de tua arte, Artesanato em tuas mãos, Dos pés, o teu chão.
Chegaste como quem nada quer e Arrasaste meu coração, mulher Fizeste-me escabelo de teus pés Fizeste-me laço em teus cabelos Fizeste-me canto em teus ouvidos Fizeste-me um e foste dez!
Deferiste os mais duros golpes, Foste baixa e ferina E eu, que nem sei brincar, Recebi a espada de tua esgrima. Feriste a um teu, fizeste teu galope Foste cobra, deste um bote Do poema, foste o mote Mataste a esperança ínfima Fizeste nascer a fonte Lágrima Deste origem à lástima Despiste tua máscara Meu coração esmiuçara E tinhas a voz tão calma E foste algoz, bicho feroz Devoraste minha alma.
Mas de solidão sucumbirá Teu coração atrofiará Serás amarga, carcará Terás embargo, isolar-te-á Terás tristeza, chorará Em tua própria aspereza, há de te arranhar Quando,…