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Amor (im)próprio

És real ou apenas és imaginação minha? 
És de verdade ou materialização do desejo meu? 
Existes ou minha mente persiste em dar-te vida? 
Se não fores real, por que esses ares de majestade?  
Se não és verdade, por que teu calor me invade? 
Se não existes, por que algo em mim resiste e não te mata? 
És coisa real, és rei ou és rainha? 
És verdade, verdadeira ou brincadeira minha?  
Existes, resistes ou faz-me brinquedo teu? 
Se te imagino, desejo-te, então, em ti, sou eu? 
Amo em ti aquilo que és ou que é meu em ti? 
Se sou eu, por que te sinto tão distante e não aqui? 
Se estás longe sendo eu, então eu me perdi? 
Ah, amor, seja o que for, eu não te mereci?  
És real ou igual, tal e qual a mim? 
És verdade e realidade só por que te quero assim? 
Existes e provoca-me só por que não te dou fim? 
Mas se mato, te mato, mato também a mim. 
Se me olho, te olho, somos um, enfim. 
Se te olho, e olho, és um sem mim. 
Se te vejo, eu percebo:  não estás a fim.  
Mas, se te sou e me és, estamos condenados, sim 
A sermos reflexos, perplexos, até o fim. 
E se eu amo, te amo, eu sou assim: 
Narcisista, egoísta – amo o que tens de mim. 
Ah, espelho! Espelho meu! 
Existe amor mais bonito que este meu? 

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Carpe diem

O tempo não existe.
Como podereis dizer que o tempo passa
Só pela aparência que muda,
Pelo Sol que se esconde
E pelas mudanças climáticas?
Como podereis afirmar que passa o tempo
Só pelo que foi transcorrido,
Pelo que foi esquecido
E pelas horas trágicas?

O tempo, hum, ele não existe.
Não existe, também, a vida;
Não existem os sonhos;
Não há caminhada nem há olhos tristonhos
— Mas a tristeza existe.
Há a coisa chamada felicidade, também;
Há o medo;
Há o descaso e o desdém.

O tempo não existe.
Não há senão a grande ilusão da existência
Que se equilibra entre a razão e a demência,
Entre a pureza e a indecência.
Quem dera fôssemos só loucos e indecentes!
Quem dera chupássemos os dedos,
Esquecêssemos o medo...
Quem dera chorássemos pura e exclusivamente por vontade de chorar,
Cantássemos sem a preocupação de desafinar,
Despíssemos nosso corpo no meio da rua
E, voltados para a lua, puséssemo-nos a uivar!

Mas a consciência não existe,
Só as regras persistem em d…

SINAIS DOS TEMPOS

Os olhos foram comidos Comidos foram os ouvidos Costurada a boca Roubados os sentidos A coisa agora é outra A coisa agora é rouca É louca a coisa pouca É tanta gente trouxa É tanta mente vaga E as vagas andam poucas A inteligência vazia Sucumbe à tecnologia E um smartphone sabe o que não sabe o homem E, no mundo, há tanta fome E tantos que descartam o que nem consomem E tanto homem no ponto Sentado feito tonto Esperando seu ônibus chegar Rodeado de tanta gente Incapaz de conversar E, se conversa, mente: Em quem se pode acreditar? E o ouvido no fone E os olhos na tela E o toque é touch E o touch é screen Alguém, por favor, olha para mim Que olhos? No rosto duas marcas cicatrizadas Alguém, por favor, diga algo para mim Que boca? A agulha costura o silêncio Alguém, por favor, dê ouvidos para mim? Que ouvido? Há tempos já foi consumido
É o fim.

Discurso Fúnebre

O amor sem esperança não tem outro refúgio senão a morte. (José de Alencar)


Não sei o que queres de mim Não sei se me queres assim Não sei se é este meu fim: Morrer por amar-te, Ser o brim de tua arte, Artesanato em tuas mãos, Dos pés, o teu chão.
Chegaste como quem nada quer e Arrasaste meu coração, mulher Fizeste-me escabelo de teus pés Fizeste-me laço em teus cabelos Fizeste-me canto em teus ouvidos Fizeste-me um e foste dez!
Deferiste os mais duros golpes, Foste baixa e ferina E eu, que nem sei brincar, Recebi a espada de tua esgrima. Feriste a um teu, fizeste teu galope Foste cobra, deste um bote Do poema, foste o mote Mataste a esperança ínfima Fizeste nascer a fonte Lágrima Deste origem à lástima Despiste tua máscara Meu coração esmiuçara E tinhas a voz tão calma E foste algoz, bicho feroz Devoraste minha alma.
Mas de solidão sucumbirá Teu coração atrofiará Serás amarga, carcará Terás embargo, isolar-te-á Terás tristeza, chorará Em tua própria aspereza, há de te arranhar Quando,…