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Acorda

Converteu-se em pó os sonhos,
Em dor o sentimento,
Em lágrima o canto,
Em medo a esperança.
Tristonhos os que eram felizes,
Arrependimento aos que tinham certezas,
Espanto aos que tinham coragem,
Vingança aos que já nasceram sofridos.
Converteu-se em nada as diretrizes,
Fez-se feiura as belezas,
Embaçou-se a imagem,
Negou-se o cuidado aos feridos.
Escondeu-se a luz dos dias,
Morreu-se, afogada em pus, a alegria
Danou-se, na abstrata cruz, a magia
Quebrou-se, já não mais reluz, a euforia.
E dormem-se os homens, felizes;
E contentam-se as mulheres, condizem;
E brincam as crianças, não sabem da dor;
Esforçam-se os idosos, atrofiam-se no desamor.
E a massa, contente,
Choca-se com meu pavor
E a massa, dormente,
Choca-se com meu ardor
E a massa, ainda crente,
Choca-se com meu ceticismo.
E a massa, sorridente,
É alheia ao belicismo.
Acorda, massa fria!
Acorda: há sangria!
A corda está no pescoço!
Acorda: já roem seu osso!
A corda já se arrebenta!
Acorda: a vida, assim, não aguenta!

Acorda!

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