Pular para o conteúdo principal

Carpe diem

O tempo não existe.
Como podereis dizer que o tempo passa
Só pela aparência que muda,
Pelo Sol que se esconde
E pelas mudanças climáticas?
Como podereis afirmar que passa o tempo
Só pelo que foi transcorrido,
Pelo que foi esquecido
E pelas horas trágicas?

O tempo, hum, ele não existe.
Não existe, também, a vida;
Não existem os sonhos;
Não há caminhada nem há olhos tristonhos
— Mas a tristeza existe.
Há a coisa chamada felicidade, também;
Há o medo;
Há o descaso e o desdém.

O tempo não existe.
Não há senão a grande ilusão da existência
Que se equilibra entre a razão e a demência,
Entre a pureza e a indecência.
Quem dera fôssemos só loucos e indecentes!
Quem dera chupássemos os dedos,
Esquecêssemos o medo...
Quem dera chorássemos pura e exclusivamente por vontade de chorar,
Cantássemos sem a preocupação de desafinar,
Despíssemos nosso corpo no meio da rua
E, voltados para a lua, puséssemo-nos a uivar!

Mas a consciência não existe,
Só as regras persistem em ditar a escravidão!

O tempo não existe.
Só existe a modorra, a monotonia.
A vida, que nem existe, é a mesma coisa
Dia e noite, noite e dia.
Quem dera abandonássemos, por um instante,
O desiderato!
Mas é preciso, que coisa fatigante, o cronograma,
O corpo na cama e a comida no prato!

E a falsa consciência diz que não somos como os demais seres.
No entanto, se a consciência é falha, é verdade os seus dizeres:
Os outros são livres, apenas escravos dos instintos;
Somos “livres” dos instintos, mas presos em nós.
E perdemos a voz, perdemos o sono, perdemos o sexo, perdemos o Sol,
Não vemos o luar, desconhecemos as estrelas.
E, quando vemos, já estamos sem mãe, já estamos sem cama,
Libido não há, o Sol já partiu, a Lua explodiu
E nos sentimos “José”.

E o tempo não existe, o que existe é agora.
Como tereis coragem de, olhando em meus olhos, dizer o contrário?
Dez horas, quatorze, dezenove, vinte e três horas:
No momento em que são, são sempre agora.
O que existe é antes, durante e depois do instante
(E não é passado, é lembrança;
Não é futuro, é esperança;
Não é presente, é a chance de transformar).
E nada disso é tempo – essa coisa que limita as durações.
Nada disso é tempo...

(O tempo, a vida, a felicidade, a tristeza, a eternidade, as palavras...
Tudo ilusão do homem que é louco, mas não sabe que é,
Porque crê que louco é quem chupa o dedo e chora quando quiser!
A loucura das loucuras é não querer ser louco, porque só o insano é livre.
O demente não é alienado: sabe-se no umbigo da coisa, só não sabe dizê-lo).

Nada disto é tempo...
Tudo o que existe é a ilusão e a perturbação,
Algo que, talvez erroneamente, chamo de encenação:
Tudo quando enxergamos, é um palco – o que tudo quer de nós
É a experiência, a violência, a incongruência.
Experimentação. Nada mais.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

SINAIS DOS TEMPOS

Os olhos foram comidos Comidos foram os ouvidos Costurada a boca Roubados os sentidos A coisa agora é outra A coisa agora é rouca É louca a coisa pouca É tanta gente trouxa É tanta mente vaga E as vagas andam poucas A inteligência vazia Sucumbe à tecnologia E um smartphone sabe o que não sabe o homem E, no mundo, há tanta fome E tantos que descartam o que nem consomem E tanto homem no ponto Sentado feito tonto Esperando seu ônibus chegar Rodeado de tanta gente Incapaz de conversar E, se conversa, mente: Em quem se pode acreditar? E o ouvido no fone E os olhos na tela E o toque é touch E o touch é screen Alguém, por favor, olha para mim Que olhos? No rosto duas marcas cicatrizadas Alguém, por favor, diga algo para mim Que boca? A agulha costura o silêncio Alguém, por favor, dê ouvidos para mim? Que ouvido? Há tempos já foi consumido
É o fim.

Discurso Fúnebre

O amor sem esperança não tem outro refúgio senão a morte. (José de Alencar)


Não sei o que queres de mim Não sei se me queres assim Não sei se é este meu fim: Morrer por amar-te, Ser o brim de tua arte, Artesanato em tuas mãos, Dos pés, o teu chão.
Chegaste como quem nada quer e Arrasaste meu coração, mulher Fizeste-me escabelo de teus pés Fizeste-me laço em teus cabelos Fizeste-me canto em teus ouvidos Fizeste-me um e foste dez!
Deferiste os mais duros golpes, Foste baixa e ferina E eu, que nem sei brincar, Recebi a espada de tua esgrima. Feriste a um teu, fizeste teu galope Foste cobra, deste um bote Do poema, foste o mote Mataste a esperança ínfima Fizeste nascer a fonte Lágrima Deste origem à lástima Despiste tua máscara Meu coração esmiuçara E tinhas a voz tão calma E foste algoz, bicho feroz Devoraste minha alma.
Mas de solidão sucumbirá Teu coração atrofiará Serás amarga, carcará Terás embargo, isolar-te-á Terás tristeza, chorará Em tua própria aspereza, há de te arranhar Quando,…