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Sufrágio

Não sou alheio à realidade:
Sou-lhe estranho, mas lhe sei e vejo-lhe
Não sou apaixonado pela a humanidade
Mas a sou, ainda que preferisse ser brejo.

Nunca decidi nada por mim mesmo
Nunca me permiti caminhar sozinho, a esmo
Não me permiti ou não me permitiram?
Faz diferença?
Fará diferença oferecer ou ser oferenda?

O mundo é uma coisa coerciva
Obriga-nos a ser, mas não nós: a massa
O mundo é bicho repressivo
Obriga-nos a dizer, mas não com nossa a voz: a massa.

Quando nasci tudo já era como é
(Importa se me aprazia viver no sistema?)
Cresci e não sei se ando com meu próprio pé
(Paciência! É meu o dilema!)

Matrizes, formas, raízes e normas
Réplicas, plágios, reprodução por toda a parte!
Ser o que é, agir na própria fé, será arte?

E infeccionam o mundo!
Cavoucam as feridas
Acertam o cerne da vida
Matam-na!
Matando-a, acertam-me
(Não me culpem a esperança moribunda).

Por que me sinto numa roupa apertada?
Por que percebo no peito a facada?
Por que duvido de tudo, de nada?
Por que magoa-me seguir nesta estrada?

Neste mundo tão meu,
Fui feito estrangeiro:
Agora é me jogar no buraco negro de minha alma
Gritar, embora sem perder a calma
E tratar de me encontrar.

Depois, viver
Depois, caminhar
Depois, tarde demais!
Revirarei, já, as entranhas do mundo:
Quem sabe eu as fecunde?

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