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Sufrágio

Não sou alheio à realidade:
Sou-lhe estranho, mas lhe sei e vejo-lhe
Não sou apaixonado pela a humanidade
Mas a sou, ainda que preferisse ser brejo.

Nunca decidi nada por mim mesmo
Nunca me permiti caminhar sozinho, a esmo
Não me permiti ou não me permitiram?
Faz diferença?
Fará diferença oferecer ou ser oferenda?

O mundo é uma coisa coerciva
Obriga-nos a ser, mas não nós: a massa
O mundo é bicho repressivo
Obriga-nos a dizer, mas não com nossa a voz: a massa.

Quando nasci tudo já era como é
(Importa se me aprazia viver no sistema?)
Cresci e não sei se ando com meu próprio pé
(Paciência! É meu o dilema!)

Matrizes, formas, raízes e normas
Réplicas, plágios, reprodução por toda a parte!
Ser o que é, agir na própria fé, será arte?

E infeccionam o mundo!
Cavoucam as feridas
Acertam o cerne da vida
Matam-na!
Matando-a, acertam-me
(Não me culpem a esperança moribunda).

Por que me sinto numa roupa apertada?
Por que percebo no peito a facada?
Por que duvido de tudo, de nada?
Por que magoa-me seguir nesta estrada?

Neste mundo tão meu,
Fui feito estrangeiro:
Agora é me jogar no buraco negro de minha alma
Gritar, embora sem perder a calma
E tratar de me encontrar.

Depois, viver
Depois, caminhar
Depois, tarde demais!
Revirarei, já, as entranhas do mundo:
Quem sabe eu as fecunde?

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Carpe diem

O tempo não existe.
Como podereis dizer que o tempo passa
Só pela aparência que muda,
Pelo Sol que se esconde
E pelas mudanças climáticas?
Como podereis afirmar que passa o tempo
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Pelo que foi esquecido
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Não existem os sonhos;
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Há o medo;
Há o descaso e o desdém.

O tempo não existe.
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Entre a pureza e a indecência.
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Mas a consciência não existe,
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SINAIS DOS TEMPOS

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É o fim.

Discurso Fúnebre

O amor sem esperança não tem outro refúgio senão a morte. (José de Alencar)


Não sei o que queres de mim Não sei se me queres assim Não sei se é este meu fim: Morrer por amar-te, Ser o brim de tua arte, Artesanato em tuas mãos, Dos pés, o teu chão.
Chegaste como quem nada quer e Arrasaste meu coração, mulher Fizeste-me escabelo de teus pés Fizeste-me laço em teus cabelos Fizeste-me canto em teus ouvidos Fizeste-me um e foste dez!
Deferiste os mais duros golpes, Foste baixa e ferina E eu, que nem sei brincar, Recebi a espada de tua esgrima. Feriste a um teu, fizeste teu galope Foste cobra, deste um bote Do poema, foste o mote Mataste a esperança ínfima Fizeste nascer a fonte Lágrima Deste origem à lástima Despiste tua máscara Meu coração esmiuçara E tinhas a voz tão calma E foste algoz, bicho feroz Devoraste minha alma.
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