Os porquês do escrever
Escrevo com a mesma naturalidade
e independência com que morro, com o mesmo desapego do tempo que passa, com a
mesma teimosia do amor que insiste em existir. Escrevo como quem morre, repito.
Outra comparação não seria tão precisa: a única realidade equitativa e
realmente irreverente que existe é mesmo a morte – se souber outra, avise-me.
E o que escrevo é meus avessos,
tão avesso que escrevo ao contrário: começo do fim, termino no meio, desenvolvo
no início, organizo depois – às vezes nem isso, às vezes deixo a bagunça que é
a única maneira que encontro de pôr em ordem. E o que é o avesso, senão o lado
correto? Nele não há fingimentos ou imitações: carrega toda a nossa identidade
- quer agrade, quer não.
Escrevo não para criar, mas para
destruir: espécie de iconoclasta, destruo as imagens do tradicional, o que prende
aos tabus, que amarra ao pode-não-pode, menino-menina de nossos dias. Meu
escrever é o vômito daquilo que comi e me fez mal, nauseou – e nauseio a tantos
outros para ver se põem para fora as amarras.
Regurgitar... costumamos mesmo
expelir, além do que nos incomoda, aquilo que nos excede: não entendo ou não
concordo, ponho para fora! Erro ingrato! O excedente positivo, aquilo que me
supera, devoro (ainda que eu precise “arrotar” para encontrar espaço para o
conteúdo de minha ação antropofágica).
Escrever é, também, forma de ser
uma ave-mãe: armazenar a comida na moela para entregá-la àqueles que, por uma
razão ou outra, não podem voar para buscá-la. Se o alimento que levo é bom ou
não, paciência: por sorte, há sempre a chance de saltar fora do ninho e voar
com as próprias asas - mas a liberdade é um prato que só come quem ousa
abandonar-se e abrir e fechar as asas numa esperança louca de ruflar.
Mas, se escrevo, é mais para não
morrer: as palavras são água e eu não sei nadar. Escrever é como estar à deriva
no oceano num barco esburacado e tentar, com um balde inútil, jogar para fora a
água que o invade e o faz afundar; é como a baleia que busca a superfície para
respirar, mas que, se abandona a água, desidrata, superaquece, sufoca e morre.
Por último, escrevo para
alimentar o meu prazer: é como dois corpos que se roçam numa busca louca pelas
entranhas, uma penetração contínua e ritmada, mordida de lábio, contração das
mãos, um arranhão e, por fim, a entrega total, o orgasmo. As palavras e eu,
corpos que precisam se encontrar, que se envolvem e se abraçam, que se invadem
no âmago em um entra e sai bem-ensaiado (embora sem ensaio), um desespero que
aperta músculos e cerra os lábios (não é por eles que as palavras sairão).
Depois, o jorro ininterrupto, o esvaziamento, a queda num suporte que já não
sou mais eu, um prazer descomunal – se fecundará e se será eterno, eu não sei.
Eterno em mim é este orgasmo literário, este mesmo que sinto agora que escrevo
estas últimas palavras. Jorrei.
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