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Da janela de um ônibus

Da janela do ônibus é possível perceber que a vida persegue a vida,
Que a vida é miscível à vida, que chegada é miscível em partida.
Da janela, o mundo nos contempla; da janela, tudo é palpável
E transpõe o limite aceitável da própria limitação:
Janela é o berço e os olhos do mundo.

Da janela, é possível ver, lá longe, correndo e dançando, a vida
E, atrás dela, o comboio do samba em que anda a partida
Ainda mais para trás, uma mão de menino
Cada vez mais longe da vida
E mais perto do mundo
Mais perto do fundo
Distante
Ao lado
Do fim.

A vida vai na ponta do verso; na ponta do verso, vai a vida
Mundo fica é no começo, incapaz de alcançá-la
Ultrapassá-la já nem tenta, não pode,
É a vida a puxar o bonde
O demais, atrás

Algum dia, um outro comboio, sem samba, mas tocando The Doors – The End
Trará, por motor descontente, a morte – que falta de sorte!
Essa sim, alcançará a vida numa corrida de instantes
Colocar-se-á ao lado dela, pouco distante
À distância de um só salto, menos até
Passará para lá, já descalço, o sujeito
Sem samba no pé

Sentar-se-á num canto, calado, solvendo a bebida mais amarga
Chorará, conformar-se-á, calará e partirá
(Tão lindo ou horrendo
O lado de lá).

Porque a vida, enraizada na gente, cresce mesmo de repente
Bebendo a água do amor, tragando a seiva da dor
Fotossintetizando alegrias
Mas, depois de desabrochada a flor e de espalhado o perfume,
Tudo começa a murchar e a despetalar já sem pressa...
Quando a última pétala cai, é a vida que se vai,
Já sem samba, já sem malandragem
É o fim (ou começo) da viagem
Talvez, nunca mais primavera.

Mas, uma flor que desabrocha e um comboio que passa,
Não passa sem deixar lembranças:
A marca no solo, o coro
Eternizar-se-á: é o tal
Do sentimento-sal
Saudade.

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