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Hino ao Avesso

Parte I

Caminha rumo à liberdade flácida
Um povo tolo, cego e repugnante
E o olhar, se há olhar, é fugidio
Em cada passo, tudo é humilhante.

Se há riso, é falsidade
Seus pequenos, bobos sonhos, não têm cores
Mal existe, morre em vida
Sua vida, mal vivida, só tem dores.

Ó, povo pisado
Derrotado,
Brade! Brade!

Sentiu um abuso imenso, um rubro líquido
Com dor, sem temperança, o sangue desce
Se cumpre seu dever moral e cívico
Não vê ser atendida a sua prece.

Gritante, sem amor e sem beleza
É podre, é fraco, amargoso desgosto
E o rosto traduz sua tristeza

Nunca tem nada!
Só sonho vil,
Amor não viu
Gente acabada!

Dos caminhos que fez, liberdade não viu
Gente massacrada
Servil

Parte II

Cansado do seu sonho intermitente,
Da dor, ranger de dentes, de ser infecundo,
Em chamas, o povo clama força bélica
Mas é só seu o sangue que jorra pelo mundo

Do que a gente mais sofrida,
São tristonhos, passos lentos, sem amores
Suas costas têm feridas
Suas feridas, sem receio, têm mais dores.

Ó, gente pisada,
Derrotada,
Brade! Brade!

Servil, da carroça, é o burro
Chacoalhando a cabeça, é o gado
Com você, não caminho, não me curvo
Não faço o que não for do meu agrado.

Mas, se levantar a cabeça, será mais forte
Verá que vale a pena teimar na luta
E não marchará perdida à própria sorte

Gente acordada!
Já não é vil,
Mas guerrilheira
Gente revigorada!

Daqueles que a liberdade constrói,
Ninguém rouba,
Ninguém corrói.

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Carpe diem

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