Pular para o conteúdo principal

Dá-me

Estou preso, dá-me a mão
Estou preso, dá-me chão
Estou morto, dá-me vida
Estou morto, dá-me a despedida
Estou perdido, dá-me luz
Estou perdido, truz.

Erro de poeta terá perdão?
Erro que produz melodias, erro-violão?
Erro que conduz meus dias, erro que me leva?
Erro que constrói, a dor cria e a dor encerra?

Dá-me a mão? Dá-me chão?
Dá-me vida e despedida?
Dá-me luz, dá fim ao truz?

Errei poeta, linha reta é meu chão
Errei poeta, muita vida em minha mão
Errei poeta, há gás na minha candeia
Errei poeta, bala veloz que cambaleia

Chegas só agora que encerrei minha defesa?
Vens só agora que me derramei sobre a mesa?
Agora já sequei meu coração
Chegaste tarde: dá-me não!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Caminhada da Fé

Ah, almas tantas! Resolveram, todas, caminhar rumo ao céu – e essa caminhada não permite apego àquilo que julgam ser seu, é preciso se desvencilhar de tudo e apegar-se ao motivo primeiro que fez com que estivessem ali: a fé. Ah, almas tantas! Cantam, intercedem, prosseguem! E que há de ser feito, senão prosseguir? A vida não nos permite paradas – nem frente às dores, aos medos, às desesperanças e ao cansaço: os olhos se lançam ao infinito, redescobrem horizontes, enxergam motivos para continuar. Ah, almas tantas! Estão no chão, mas é para o alto que saltam, é o alto que buscam – e o alto é bem aqui, dentro de mim, no mais profundo e não na facilidade da superfície, no âmago. Por que seguem juntas? Porque uma é sustento para a outra e, também, se a uma faltar a energia, a força das demais é suficiente para mantê-la de pé. Há almas nas janelas que assistem as outras passarem – e, por assistirem, passam com elas. Com elas, velas e rosas para abençoar a passagem dos demais: são almas …

Cansado, outra vez

Estou farto da Literatura: ou se fala de amor ou se fala de ódio – em alguns casos, de nenhum deles, mas o resultado é igualmente fatigante. Não tenho mais energias para isso, não tenho mais energia para nada: estou cansado de tudo isto, de tudo isso e de tudo aquilo. Tudo define bem o que me desagrada, restando apenas o nada a meu favor. Meu tudo, talvez, seja nada; meu nada, talvez, seja tudo. Quem sabe? Eu não. Minha fadiga também já é assunto repetitivo, sem valor. Talvez seja um plágio de mim mesmo, tanto que recorro às mesmas falas, já gastas, já sem seu sentido primeiro. Nem a novidade, que eu tanto preguei e defendi, vem a meu socorro – estou sozinho, e é de praxe estar. Vê? Tudo de novo já nasce tão velho que me desgasta. Já se sabe, desde a origem, o futuro de todo o mundo. Sim, sabe-se. Sei que vai crescer, se machucar, estudar, machucar-se outra vez, chorar, sorrir, estudar, trabalhar ou não trabalhar, perder o emprego ou nunca “encontrá-lo”, mais sofrimento, mais felic…

Àquela mulher

Há uma mulher vestida de chita. O que ela quer? Por que tão aflita? Há uma mulher de cabeleira presa. Dá para saber o porquê da tristeza?
Ah, mulher dissemelhante! Onde se encaixa neste mundo tão errante? Ah, mulher desinquieta! Por que, em linhas tortas, sua vida é tão correta?
Essa mulher pariu o mundo Essa mulher é mãe do céu Ela vela pelo infecundo Derrama em tudo seu mel.
Quem é ela, tão pequena? Essa miúda, quem é? É aquela que não condena, Que dá motivos à fé.
Há uma mulher vestida de vida É dona do mundo, imunda não é.

O dizeres (calado)

Segue dando forma a teus silêncios, menino! Segue! Impressiona-te: eles dizem muito de ti. Leva consigo todas as tuas marcas, tuas formas... Encontra sustento em teus olhares – que ainda não vi. No não dito, há muito dizendo Como no dito, há muito que permanece calado. Impressiona-te: há coisas que são melhores ditas em silêncio. O teu silêncio, às vezes, é o que melhor te descreve – escreve.