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Metafísico

Hoje minha alma está despida de qualquer característica que possa ser chamada de sua. Olhou-me a carne como se dissesse: despeço-me. E foi-se. Aonde foi, não sei – mas foi sem nem olhar para trás.
Hoje estou despido de qualquer alma que eu possa chamar de minha: quando ela me disse “vou”, respondi “vai”. Separei-me: agora estou dividido entre o corpo, que aqui está; e a alma, que voa longe - expulsei-a e nem olhei aonde ia. 
Agora sou um nem-corpo-nem-alma que não sei dizer: sou, talvez, um "talvez" e não mais que isso. Porque a alma que se foi já não é parte de mim, já não sou eu; e o corpo que ficou é só carne, quem sabe se viva, que já não manifesta nem sombra dos meus desejos - talvez apenas um resto podre de mim, fétido como um cadáver há muito esquecido queimando no sol.
A vida ainda resta, eu bem sei - porque é a vida que fala. Resta a vida e resto eu, mas não sei onde estou nem onde ela está - mas estamos em algum lugar, perdidos entre o céu e o inferno, entre o corpo e alma, entre mim e eu mesmo, entre os extremos ou além deles - se é que é possível. Estamos sumidos por aí, por aqui - onde a paz mora.

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