Pular para o conteúdo principal

Inícios

“Viva cada dia como se fosse o último”, dizem por aí. Confesso que essa frase sempre me causou certo medo e estranhamento e não é sem esses sentimentos que a transcrevo. Não acredito que eu, sabendo ter minha vida quase finda, amaria e sorriria e brincaria mais (talvez e muito provavelmente eu faria o exato oposto, porque a certeza do término me sufocaria).
Sufoco... é o que acontece quando nos rendemos à sofreguidão: a ânsia nos acelera o coração e o joga na nossa goela – entalado, mas pulsando em nossa garganta, ele clama para sair: se tivermos sorte, conseguimos engolir ou cuspir; se não tivermos, ele ficará ali até que resfoleguemos o último jato de ar.
Não é que eu fuja à ideia da morte, não é que eu seja covarde. Manifestarei aqui minha defesa (ou talvez não, não sei se será realmente proveitoso dizer alguma coisa): gosto da morte e digo isso sem a menor culpa, gosto dela porque ela põe cada indivíduo em seu devido lugar – e não me refiro unicamente a debaixo da terra – mostrando a cada um o quão efêmero ele é, o quão passageiro e insignificante é para dizer-se mais que o outro e o tanto que ele significa para dizer ser menos.
“Viva cada dia como se fosse o último”: ao diabo que o carregue com isso! Se te serve, vista – mas não queira me meter isso na cabeça! Quem quiser ver cada instante como o último (o que não é um erro, porque ele não se repete), que veja! Mas não serei eu a concordar com isso: prefiro acreditar que cada vez é a primeira, cada instante é o inicial (e pelo mesmo motivo: ele não ecoa – depois que passa, passa).
Não me é possível recordar qual minha reação quando, não com muito carinho, fui expulso do ventre de minha mãe, mas imagino que foi com encantamento que vi o mundo – claro, porque não o conhecia: saber faz a Magia morrer e a transforma em Ciência. Mas sei que sei tão pouco e que o pouco que sei me é tão vago, que ainda me permito encantar: olho cada coisa pela primeira vez, mesmo que seja a milésima – e é assim que aprendo a viver de verdade: nascendo a cada dia. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Carpe diem

O tempo não existe.
Como podereis dizer que o tempo passa
Só pela aparência que muda,
Pelo Sol que se esconde
E pelas mudanças climáticas?
Como podereis afirmar que passa o tempo
Só pelo que foi transcorrido,
Pelo que foi esquecido
E pelas horas trágicas?

O tempo, hum, ele não existe.
Não existe, também, a vida;
Não existem os sonhos;
Não há caminhada nem há olhos tristonhos
— Mas a tristeza existe.
Há a coisa chamada felicidade, também;
Há o medo;
Há o descaso e o desdém.

O tempo não existe.
Não há senão a grande ilusão da existência
Que se equilibra entre a razão e a demência,
Entre a pureza e a indecência.
Quem dera fôssemos só loucos e indecentes!
Quem dera chupássemos os dedos,
Esquecêssemos o medo...
Quem dera chorássemos pura e exclusivamente por vontade de chorar,
Cantássemos sem a preocupação de desafinar,
Despíssemos nosso corpo no meio da rua
E, voltados para a lua, puséssemo-nos a uivar!

Mas a consciência não existe,
Só as regras persistem em d…

SINAIS DOS TEMPOS

Os olhos foram comidos Comidos foram os ouvidos Costurada a boca Roubados os sentidos A coisa agora é outra A coisa agora é rouca É louca a coisa pouca É tanta gente trouxa É tanta mente vaga E as vagas andam poucas A inteligência vazia Sucumbe à tecnologia E um smartphone sabe o que não sabe o homem E, no mundo, há tanta fome E tantos que descartam o que nem consomem E tanto homem no ponto Sentado feito tonto Esperando seu ônibus chegar Rodeado de tanta gente Incapaz de conversar E, se conversa, mente: Em quem se pode acreditar? E o ouvido no fone E os olhos na tela E o toque é touch E o touch é screen Alguém, por favor, olha para mim Que olhos? No rosto duas marcas cicatrizadas Alguém, por favor, diga algo para mim Que boca? A agulha costura o silêncio Alguém, por favor, dê ouvidos para mim? Que ouvido? Há tempos já foi consumido
É o fim.

Discurso Fúnebre

O amor sem esperança não tem outro refúgio senão a morte. (José de Alencar)


Não sei o que queres de mim Não sei se me queres assim Não sei se é este meu fim: Morrer por amar-te, Ser o brim de tua arte, Artesanato em tuas mãos, Dos pés, o teu chão.
Chegaste como quem nada quer e Arrasaste meu coração, mulher Fizeste-me escabelo de teus pés Fizeste-me laço em teus cabelos Fizeste-me canto em teus ouvidos Fizeste-me um e foste dez!
Deferiste os mais duros golpes, Foste baixa e ferina E eu, que nem sei brincar, Recebi a espada de tua esgrima. Feriste a um teu, fizeste teu galope Foste cobra, deste um bote Do poema, foste o mote Mataste a esperança ínfima Fizeste nascer a fonte Lágrima Deste origem à lástima Despiste tua máscara Meu coração esmiuçara E tinhas a voz tão calma E foste algoz, bicho feroz Devoraste minha alma.
Mas de solidão sucumbirá Teu coração atrofiará Serás amarga, carcará Terás embargo, isolar-te-á Terás tristeza, chorará Em tua própria aspereza, há de te arranhar Quando,…