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Adeus

Hoje é um daqueles dias que eu chamo “propícios para a escrita”. Não me pergunte o motivo, não serei eu a dizê-lo: sei que está e, sabendo, já me contento. Tem dias que escrever me é tão natural quanto... quanto a morte, talvez – e não o digo para ser trágico, mas por ser a única verdade que não achei maneira de confrontar.
Dia propício para escrever é também dia propício para ler e eu não consigo, muitas vezes, atender às duas necessidades: quando me dou a alguma coisa é inteiro – se for para ser em partes, antes não ser nada. Por isso, hoje apenas li e o que faço agora é apenas uma prosa rápida de quem já se doou ao máximo a alguma coisa, mas, sabendo que ainda sobrou algo no frasco que é, resolveu derramar o pouco do “eu” que restou.
E se está propício para escrever e ler, quanto mais está para rezingar! Dia vantajoso não é sinônimo de dia perfeito: por vezes, é justamente o oposto: escrevo muitas vezes para traduzir descontentamentos – canto sentimentos, sejam bons ou ruins. E há, neste exato momento, um não-sei-o-quê que me incomoda (e não só agora: a eternidade me é uma faca cravada no rim e é para estancar a ferida que faço as coisas que faço, e a única coisa que faço é viver).
E o que é escrever, senão liberar as palavras do inferno que sou eu, dar-lhes o céu? Seria me libertar do inferno que as palavras são e dar-me o céu? Quão verdadeiras são essas afirmações? Também não serei eu a responder isso. Aliás, parece que acabei de derramar minha última gotícula de mim: é um adeus.



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Como podereis dizer que o tempo passa
Só pela aparência que muda,
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Pelo que foi esquecido
E pelas horas trágicas?

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Não existe, também, a vida;
Não existem os sonhos;
Não há caminhada nem há olhos tristonhos
— Mas a tristeza existe.
Há a coisa chamada felicidade, também;
Há o medo;
Há o descaso e o desdém.

O tempo não existe.
Não há senão a grande ilusão da existência
Que se equilibra entre a razão e a demência,
Entre a pureza e a indecência.
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Quem dera chupássemos os dedos,
Esquecêssemos o medo...
Quem dera chorássemos pura e exclusivamente por vontade de chorar,
Cantássemos sem a preocupação de desafinar,
Despíssemos nosso corpo no meio da rua
E, voltados para a lua, puséssemo-nos a uivar!

Mas a consciência não existe,
Só as regras persistem em d…

SINAIS DOS TEMPOS

Os olhos foram comidos Comidos foram os ouvidos Costurada a boca Roubados os sentidos A coisa agora é outra A coisa agora é rouca É louca a coisa pouca É tanta gente trouxa É tanta mente vaga E as vagas andam poucas A inteligência vazia Sucumbe à tecnologia E um smartphone sabe o que não sabe o homem E, no mundo, há tanta fome E tantos que descartam o que nem consomem E tanto homem no ponto Sentado feito tonto Esperando seu ônibus chegar Rodeado de tanta gente Incapaz de conversar E, se conversa, mente: Em quem se pode acreditar? E o ouvido no fone E os olhos na tela E o toque é touch E o touch é screen Alguém, por favor, olha para mim Que olhos? No rosto duas marcas cicatrizadas Alguém, por favor, diga algo para mim Que boca? A agulha costura o silêncio Alguém, por favor, dê ouvidos para mim? Que ouvido? Há tempos já foi consumido
É o fim.

Discurso Fúnebre

O amor sem esperança não tem outro refúgio senão a morte. (José de Alencar)


Não sei o que queres de mim Não sei se me queres assim Não sei se é este meu fim: Morrer por amar-te, Ser o brim de tua arte, Artesanato em tuas mãos, Dos pés, o teu chão.
Chegaste como quem nada quer e Arrasaste meu coração, mulher Fizeste-me escabelo de teus pés Fizeste-me laço em teus cabelos Fizeste-me canto em teus ouvidos Fizeste-me um e foste dez!
Deferiste os mais duros golpes, Foste baixa e ferina E eu, que nem sei brincar, Recebi a espada de tua esgrima. Feriste a um teu, fizeste teu galope Foste cobra, deste um bote Do poema, foste o mote Mataste a esperança ínfima Fizeste nascer a fonte Lágrima Deste origem à lástima Despiste tua máscara Meu coração esmiuçara E tinhas a voz tão calma E foste algoz, bicho feroz Devoraste minha alma.
Mas de solidão sucumbirá Teu coração atrofiará Serás amarga, carcará Terás embargo, isolar-te-á Terás tristeza, chorará Em tua própria aspereza, há de te arranhar Quando,…