Adeus
Hoje é um daqueles dias que eu
chamo “propícios para a escrita”. Não me pergunte o motivo, não serei eu a
dizê-lo: sei que está e, sabendo, já me contento. Tem dias que escrever me é
tão natural quanto... quanto a morte, talvez – e não o digo para ser trágico, mas
por ser a única verdade que não achei maneira de confrontar.
Dia propício para escrever é
também dia propício para ler e eu não consigo, muitas vezes, atender às duas
necessidades: quando me dou a alguma coisa é inteiro – se for para ser em
partes, antes não ser nada. Por isso, hoje apenas li e o que faço agora é
apenas uma prosa rápida de quem já se doou ao máximo a alguma coisa, mas,
sabendo que ainda sobrou algo no frasco que é, resolveu derramar o pouco do “eu”
que restou.
E se está propício para escrever
e ler, quanto mais está para rezingar! Dia vantajoso não é sinônimo de dia
perfeito: por vezes, é justamente o oposto: escrevo muitas vezes para traduzir
descontentamentos – canto sentimentos, sejam bons ou ruins. E há, neste exato
momento, um não-sei-o-quê que me incomoda (e não só agora: a eternidade me é
uma faca cravada no rim e é para estancar a ferida que faço as coisas que faço,
e a única coisa que faço é viver).
E o que é escrever, senão
liberar as palavras do inferno que sou eu, dar-lhes o céu? Seria me libertar do
inferno que as palavras são e dar-me o céu? Quão verdadeiras são essas
afirmações? Também não serei eu a responder isso. Aliás, parece que acabei de
derramar minha última gotícula de mim: é um adeus.
Comentários
Postar um comentário