Rabiscando (in)significâncias
Somos uma mala e trazemos Deus
no ventre. Somos uma mala, repito: em nós, mais que nós mesmos, os outros – às
vezes, mais outro que nós. Somos uma mala e na bagagem há tantas coisas que não
são nossas, tantas coisas que nos acrescentam sem autorização que, no fim,
confunde-se aquilo que é nosso e aquilo que nos foi “dado”. E é difícil ser
outros quando não se é o que é. É difícil e sufoca.
Hoje amanheci com dois dedos
invisíveis na garganta me espremendo a jugular: é complicado acordar assim. Complicado,
mas, no entanto, banal: ninguém vê ou, se vê, faz que não. Você sabe do que
estou falando porque também passa por isso, mesmo que negue. E tudo isso porque
somos uma mala.
Surpreende-me ver como dois cães
de rua se ajudam e cooperam a ponto de, quando um está manco, o outro não dar
um passo depressa e nem correr atrás de nada: não é indiferente à dor do outro,
mas muitos dos homens são: vejo gente que também vê gente sem enxergar a pessoa
que viu ou, se enxerga, não olha e, se olha, parece que não. É sempre a questão
do “não é comigo”, “deixa estar” e essas baboseiras que a gente ouve porque não
tem outro jeito.
A existência já não tem mais
razão de ser, anda falha: malogrou-se. Já não há mais cores no céu, embora haja
cor em mim. Mas de que me vale a cor se não sou céu? De que vale o céu se não é
cor? Já não se sabe de nada. Como não saber é oportuno: é justamente nesses
momentos em que nos sentimos mais à vontade para dizer. E quantas coisas
lastimáveis dizemos! Tentamos dar significados a palavras que não significam
nada e palavras a coisas que significam, mas não convém dizer – só sentir. E
este texto é fruto de minha mais completa ignorância, de minha tentativa falha
de vestir de palavras significados que não sei traduzir.
E, agora, já quatro dedos me pressionam
a jugular (para que em formato de pinça?
E que não me deem respostas os biólogos: hoje, teoria nenhuma tem razão
de ser: rasguem-nas. Todas elas). Essa pressão é oriunda do sufoco que trago no
peito e não consigo externar: aquilo que não ponho para fora, de fora me mata.
(Esta noite eu sonhei com o céu
e com Deus – este, idoso, mas sem rugas, não gostava de escovar os dentes;
aquele, bem, aquele não era tudo aquilo que se diz dele, não: era só um vazio
repleto de uma luz que não me deixava ver direito de onde a luz vinha. Mas
Deus, ah, era admirável – em todas as suas pessoas, que eram três, mas não
separadas como nas ilustrações: o corpo era um só. Explicou-me sua forma física
e a trindade da seguinte maneira: para ser muitos, basta ser um – e ser um não
é difícil: são três os poderes, mas é só uma a pátria).
Perdi-me. Perdi-me porque não
tem compensado encontrar: sempre que me acho, é na realidade que me vejo. E o
que é a realidade se não uma miscelânea de dores? Cores? Tem razão, nem só de dor
o homem viverá, mas de toda a aliança. Tem razão, se olhar bem, ainda há cor no
céu, embora pouca.
(Veio a mim Aquele a que tantos
buscam. Olhou-me nos olhos de uma maneira abstrata, humanamente desumana –
porque era um homem sem ser um homem – e mandou-me sentar. Queria me mostrar
uma coisa...).
Ah, realidade! Pudesse eu reinventá-la,
faria dela menos objetiva, menos formulada. Mesclaria ao real o imaginário e,
em pouco tempo, faria da existência um sonho. Mas ela já não é um sonho? Bom,
nem sempre: às vezes, é faca a nos marcar o peito, é sangue a nos jorrar dos
olhos.
(Apontou-me algo no céu, algo
que era todo colorido e todo branco; e era branco porque era a união de todas
as cores e era colorido porque a única gota de água que havia no céu - e para
quê mais, se lá não haverá mais a sede? - se fazia prisma: separava aquilo que,
naquilo que eu olhava, era um só. Aquilo não era coisa, mas gente. Difícil
dizer ser gente se não tinha carne, só alma: mas estava mais viva que eu).
Percebo: eu já posso reformular
o real, ao menos o meu. E há pessoas que já fazem isso, tecendo, unidas, mais
manhãs que os galos de João Cabral; jogando guache no sem-cor dos nossos dias.
Há tantos assim! Tantos poucos espalhados por aí, mas que são muitos porque,
cada um, vale mais que um. São estrelas que se permitem passear pela Terra
apenas para nos mostrar que não é só para o céu que devemos olhar, mas para o
chão, para o outro.
(Disse-me que não importa o
nome que damos a Ele, mas que, mesmo sem dizer o seu nome, sejamos luz na
escuridão; que, mesmo sem os holofotes, façamos o bem. Ele é simples, não faz
questão de reconhecimento, mas de boas ações: nós é que maquiamos a verdade e,
sedentos de muito, ornamos Deus de ouro. Não, eu O vi e ele não gosta de
escovar os dentes; mas de pessoas que, como aquela alma, saibam a beleza da
simplicidade).
Mas hoje é difícil olhar para o
chão: clamo aos céus por respostas – repostas essas que não virão porque não me
pertencem, porque não convém que venham. Os questionamentos vários terão que
ficar guardados em mim para que, vez ou outra, eu os admire e não esqueça da
verdade. E o que é a verdade? A sua, você quem sabe. A minha é esta: o sentido
da vida não está simplesmente em buscar a mais plena felicidade, mas em lutar
para que outros sejam plenamente felizes – o Existencialismo, que me lança
essas afirmações como perguntas, tem como resposta a mesma frase, só que
vestida de ponto final.
(É estranho encerrar um texto
dentro de parênteses, eu bem sei – mas é o jeito. Não haverá aqui explicação
nenhuma, então, se procura por respostas, sugiro que nem o leia. As palavras
todas são fruto de minha incompetência linguística e não me desculpo por isso,
se quiser desculpas, também pode parar por aqui. Abri estes parênteses apenas
para dizer que, de uma maneira ou de outra, sempre haverá parênteses abertos e
nem sempre será possível entender o porquê de eles estarem assim. Bem, não
coloque suas palavras num espaço que não é seu – nem sempre o fato de um espaço
estar vazio significa que nada há nele: muitas vezes, há coisas que você ou não
entende ou não vê: mas quem os deixou ali, possivelmente, sabe muito bem o que
tem dentro deles. Projetar-se no outro é covardia, mas projetar amor no mundo é
salvá-lo. Julgar o outro é revelar-se, estar com o outro é ser um com ele. E,
com essas palavras e sem sentido algum, termino este texto formado apenas por
garatujas).
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