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Devaneios

Há lágrimas em seus olhos. É sempre assim, porque há também um certo peso em suas costas (largas, mas que não foram feitas para sustentar o mundo). Não há sol no céu, nunca há; também não se vê as estrelas do lugar onde se encontra, nenhuma; nenhum sinal de vida, a rua está deserta; não há, sequer, fantasmas para distrair sua mente. Só uma coruja sobrevive, mas também já se cansou das trevas: está acomodada numa placa de sinalização sob um poste cuja luz se encontra em estado terminal – sim, a luz está quase morta, frouxa, quase treva. Alguém precisa se lembrar de trocar as lâmpadas dos postes, mas... para quê?
Uma... duas... três lágrimas caem no chão. É o suficiente: sob seus pés se abrem buracos negros imensos que parecem querer sugar-lhe a alma. Já não existe mais firmeza: suas pernas parecem ser só dois enfeites flácidos, porque ele cai. Fica ali, caído, por três minutos – talvez mais, talvez menos. Levanta-se, é preciso caminhar. Aonde vai? Teria ele algum lugar para ir? Mesmo que tivesse, de que adiantaria? Tudo se desfizera, reduzira a pó. E, de qualquer forma, aquele que nunca foi não tem como voltar; logo, se ele sempre andara rumo a lugar nenhum, se saíra de lugar nenhum, só este é seu lar.
 Ele pensa demais! Isso nem sempre é bom, ele bem sabe: questiona-se, tortura-se e mutila-se. Para nada! Qualquer pensamento, qualquer questionamento... que resposta? Nenhuma! É tudo tão distante, tão inalcançável, tão para poucos. E onde estão os poucos? Há dias que não vê gente, tudo está deserto – até a coruja perdeu de vista.
É, realmente parece que não há luz por aqui. Ele é destinado às trevas? Será possível? Será este seu nome: Trevas? O nome não sei, mas sei que ele não acredita em destino. Não! O que há é a vida, eterna corrida, ida, disputa, luta, revolta, volta, morte... Mas nem isso ele tem visto: onde está a vida? Onde está o movimento? Onde está a partida? O ringue, onde se esconde? Nem a morte vem buscá-lo: está abandonado à própria sorte, à falta de sorte.
Olha para seus pés que estão calçados, mas que parecem não estar: o caminhar é doído. Doída também é a fome – e que fome! Há quanto tempo está sem comer? Alguma vez na vida comera alguma coisa? Alguma vez bebera? Já não se lembra mais.
Chora, mas... qual o motivo? Quem sabe? Ele não me vê, não me ouve – logo, não me responde. Quisera eu poder visitar seus pensamentos, que acho que são os mesmos que os teus. Se me ouvisse, também não me responderia: sempre é nada, nunca é algo – sempre uma bobagem qualquer. Não o entendo. Ele também não entende. Estamos quites e isso é bom, embora me confunda.
 De repente, olha em minha direção (será que me vê?). Não, não é para mim que olha: seu olhar enxerga através de mim. Volto o meu olhar na direção do seu olhar, mas é em vão: não há nada, absolutamente nada. Mas ele vê algo, porque meio que ri, meio que chora... Cada um enxerga aquilo que quer. Mais repentino que seu olhar, é seu gesto: agacha-se e escreve uma palavra com um giz verde que retirou do bolso. De onde estou, é claro que eu não consigo ler: a pouca luz é semimorta e a sombra do rapaz-vulto a cobre.
Eu já não sei o que fazer: estou dividido entre partir e ficar. Espera, parece que ele se levanta, facilitando minha decisão. Fico, mas ele some. Já não existe mais rapaz na rua. Então sou eu quem delira? Vejo carros nas ruas (não estavam sumidos?) e um rapaz sem camisa sobre sua bicicleta (não estava deserta a rua?). Essa nossa mente é o diabo: sempre nos prega peças. Então não existe o rapaz? Espera... sob a luz fraca do poste (sim, isso é verdadeiro: precisam trocar as lâmpadas) há, ainda, uma palavra. Foi escrita rapidamente, percebo. Por quem? Por Trevas! Sim, meu imaginário se atrela à realidade. O que está escrito? Com giz verde, o homem-vulto escreveu: ESPERANÇA. Entendo de imediato o seu recado, tu também entendes, eu sei. E uma estrela aparece no céu – veio nos mostrar o caminho.

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