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Cansado, outra vez

Estou farto da Literatura: ou se fala de amor ou se fala de ódio – em alguns casos, de nenhum deles, mas o resultado é igualmente fatigante. Não tenho mais energias para isso, não tenho mais energia para nada: estou cansado de tudo isto, de tudo isso e de tudo aquilo. Tudo define bem o que me desagrada, restando apenas o nada a meu favor. Meu tudo, talvez, seja nada; meu nada, talvez, seja tudo. Quem sabe? Eu não.
Minha fadiga também já é assunto repetitivo, sem valor. Talvez seja um plágio de mim mesmo, tanto que recorro às mesmas falas, já gastas, já sem seu sentido primeiro. Nem a novidade, que eu tanto preguei e defendi, vem a meu socorro – estou sozinho, e é de praxe estar.
Vê? Tudo de novo já nasce tão velho que me desgasta. Já se sabe, desde a origem, o futuro de todo o mundo. Sim, sabe-se. Sei que vai crescer, se machucar, estudar, machucar-se outra vez, chorar, sorrir, estudar, trabalhar ou não trabalhar, perder o emprego ou nunca “encontrá-lo”, mais sofrimento, mais felicidade, menos movimento, menos destreza, mais doenças e, depois, a sepultura. Nota-se que não adicionei o Amor ao ciclo. O Ódio também não. O motivo já se sabe: estou farto de assuntos gastos.
Na televisão, rádios, revistas, nas ruas... sempre a chatice dos mesmos assuntos. Claro, não devemos nos alienar – mas também não devemos ser como máquinas programadas para repetir sempre a mesma merda (e não poderia, aqui, ter utilizado outra palavra). É desgastante constatar diariamente a podridão humana, a falsidade, a utilidade antes do significado. Significado... é até estranho falar disso num tempo em que a maioria não sabe o sentido, a verdade oculta das coisas. Mal enxergam o óbvio! E o que é o óbvio? Parece que nada é, porque nada é sabido de todos.
Quem sabe me venha o vento, quem sabe os pássaros calados cantem, quem sabe o cego veja, quem sabe o mudo me grite, quem sabe o tolo entenda, quem sabe o esotérico seja compreendido, quem sabe... talvez alguma dessas coisas me restitua a graça de saber que existo, que vivo e que morro! Ou, talvez, só a certeza de estar dentro de mim me baste. Não sei ao certo. Ou sei. É esta dúvida que há em meio a todo aquele ciclo que começa em nascer e termina com a morte (ou não), que me mantém vivo. É a incerteza – que também me irrita – que me faz ficar de pé, procurando por respostas. A raiva e a gula de saber estão em tudo – nelas, estou eu.


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Há o medo;
Há o descaso e o desdém.

O tempo não existe.
Não há senão a grande ilusão da existência
Que se equilibra entre a razão e a demência,
Entre a pureza e a indecência.
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Quem dera chupássemos os dedos,
Esquecêssemos o medo...
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Mas a consciência não existe,
Só as regras persistem em d…

SINAIS DOS TEMPOS

Os olhos foram comidos Comidos foram os ouvidos Costurada a boca Roubados os sentidos A coisa agora é outra A coisa agora é rouca É louca a coisa pouca É tanta gente trouxa É tanta mente vaga E as vagas andam poucas A inteligência vazia Sucumbe à tecnologia E um smartphone sabe o que não sabe o homem E, no mundo, há tanta fome E tantos que descartam o que nem consomem E tanto homem no ponto Sentado feito tonto Esperando seu ônibus chegar Rodeado de tanta gente Incapaz de conversar E, se conversa, mente: Em quem se pode acreditar? E o ouvido no fone E os olhos na tela E o toque é touch E o touch é screen Alguém, por favor, olha para mim Que olhos? No rosto duas marcas cicatrizadas Alguém, por favor, diga algo para mim Que boca? A agulha costura o silêncio Alguém, por favor, dê ouvidos para mim? Que ouvido? Há tempos já foi consumido
É o fim.

Discurso Fúnebre

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Não sei o que queres de mim Não sei se me queres assim Não sei se é este meu fim: Morrer por amar-te, Ser o brim de tua arte, Artesanato em tuas mãos, Dos pés, o teu chão.
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