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Reergo-me

"Eli, Eli, lama sabactâni?"



Não sei se está consumado,
Não sei se está consumindo...
Sei que me sinto desamparado,
Sinto minhas forças partindo -
Não sei do que sei.

Fiz tudo o que pude:
Corri mares, voei nos ares, lutei!
Mas veio a mão que ilude
Atacar-me, sem compaixão:
Cravaram no meu peito a lança,
Tingiram-me de vermelho a esperança
E eu parei, cai, calei.

Meu Deus, porque me atiraste neste mundo,
Tão pouco, tão louco, tão imundo?
Por que me deixaste abandonado à condição humana
Que não condiz com nada, desordenada?
Responde, se Tu me ouves!

(Sinto um sufoco, um cansaço
(Desta existência sem cadência).

Mas eis que sinto a brisa no rosto,
Sinto o doce na boca,
O calor no pescoço,
Sinto a paz na alma rota.
Será, dos céus, a resposta?

Eu sei: não está consumado,
Está só começando.
Não, o mundo não está parado,
Está rodando!
Sinto minhas forças voltando,
Ouço vozes cantando,
Ouço harpas e ruflar de asas! 
Levanto meu voo,
Coloco-me na estrada. 


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Carpe diem

O tempo não existe.
Como podereis dizer que o tempo passa
Só pela aparência que muda,
Pelo Sol que se esconde
E pelas mudanças climáticas?
Como podereis afirmar que passa o tempo
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E pelas horas trágicas?

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Não existe, também, a vida;
Não existem os sonhos;
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Há o medo;
Há o descaso e o desdém.

O tempo não existe.
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Entre a pureza e a indecência.
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Quem dera chupássemos os dedos,
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Quem dera chorássemos pura e exclusivamente por vontade de chorar,
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Mas a consciência não existe,
Só as regras persistem em d…

SINAIS DOS TEMPOS

Os olhos foram comidos Comidos foram os ouvidos Costurada a boca Roubados os sentidos A coisa agora é outra A coisa agora é rouca É louca a coisa pouca É tanta gente trouxa É tanta mente vaga E as vagas andam poucas A inteligência vazia Sucumbe à tecnologia E um smartphone sabe o que não sabe o homem E, no mundo, há tanta fome E tantos que descartam o que nem consomem E tanto homem no ponto Sentado feito tonto Esperando seu ônibus chegar Rodeado de tanta gente Incapaz de conversar E, se conversa, mente: Em quem se pode acreditar? E o ouvido no fone E os olhos na tela E o toque é touch E o touch é screen Alguém, por favor, olha para mim Que olhos? No rosto duas marcas cicatrizadas Alguém, por favor, diga algo para mim Que boca? A agulha costura o silêncio Alguém, por favor, dê ouvidos para mim? Que ouvido? Há tempos já foi consumido
É o fim.

Discurso Fúnebre

O amor sem esperança não tem outro refúgio senão a morte. (José de Alencar)


Não sei o que queres de mim Não sei se me queres assim Não sei se é este meu fim: Morrer por amar-te, Ser o brim de tua arte, Artesanato em tuas mãos, Dos pés, o teu chão.
Chegaste como quem nada quer e Arrasaste meu coração, mulher Fizeste-me escabelo de teus pés Fizeste-me laço em teus cabelos Fizeste-me canto em teus ouvidos Fizeste-me um e foste dez!
Deferiste os mais duros golpes, Foste baixa e ferina E eu, que nem sei brincar, Recebi a espada de tua esgrima. Feriste a um teu, fizeste teu galope Foste cobra, deste um bote Do poema, foste o mote Mataste a esperança ínfima Fizeste nascer a fonte Lágrima Deste origem à lástima Despiste tua máscara Meu coração esmiuçara E tinhas a voz tão calma E foste algoz, bicho feroz Devoraste minha alma.
Mas de solidão sucumbirá Teu coração atrofiará Serás amarga, carcará Terás embargo, isolar-te-á Terás tristeza, chorará Em tua própria aspereza, há de te arranhar Quando,…