Pular para o conteúdo principal

Confronto

          E a borboleta me desafia. Olha-me lá de seu canto – silenciosa, à espreita. Ela me obriga a usar orações curtas. Não tenho opção: a presença dela me faz escrever assim. Não sei o que ela tem, mas algo nela me provoca. Talvez sejam suas asas, prenúncio do voo; talvez seu silêncio, prenúncio da ação; talvez sua presença, prenúncio de uma ausência futura. Sim. Ausência futura. Quando ela não estiver mais ali, restará o vazio – o triste e agoniante vazio.
          Não é só ela quem me desafia: qualquer inseto me soa como afronta. Os motivos são os mesmos: prenúncio de voo, ação e ausência futura. Quando me acostumo a vê-los, já se foram. Quando quero que se vão, ainda estão. Eu não dito mais nada, mesmo: eles decidem por si, ou por seus instintos – sei lá o que rege um inseto, não sei nem os motivos que ME regem.
         Mas a borboleta está lá. PA-RA-DA. ES-TÁ-TI-CA. Confrontamo-nos silenciosamente (quase isso, não fosse o “tic-tic” das teclas que aperto). Ah, ela não está nem aí para mim, pois já não é lagarta: evoluiu, está pronta, acabada – já pode morrer em paz. Terminada sua metamorfose, pode desafiar quem quer que seja – já não se importa. Encara-me e sabe que estou inacabado, rindo-se de minha desgraça (ou graça de estar ainda em preparação, de nunca estar pronto). 
          De repente, ela chacoalha as asas meio que num choro contido: inveja-me, sem saber que não está pronta coisa nenhuma: estamos todos em constante mutação. O voo vem logo depois que ela percebe que nenhum de nós suportará encarar e ser encarado por muito tempo. A ação dela é rápida, conforme o esperado. Resta-me ausência, agora presente no seu lugar. Resolvo que também eu não ficarei aqui: voarei nas asas do meu pensamento. Até breve! 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Carpe diem

O tempo não existe.
Como podereis dizer que o tempo passa
Só pela aparência que muda,
Pelo Sol que se esconde
E pelas mudanças climáticas?
Como podereis afirmar que passa o tempo
Só pelo que foi transcorrido,
Pelo que foi esquecido
E pelas horas trágicas?

O tempo, hum, ele não existe.
Não existe, também, a vida;
Não existem os sonhos;
Não há caminhada nem há olhos tristonhos
— Mas a tristeza existe.
Há a coisa chamada felicidade, também;
Há o medo;
Há o descaso e o desdém.

O tempo não existe.
Não há senão a grande ilusão da existência
Que se equilibra entre a razão e a demência,
Entre a pureza e a indecência.
Quem dera fôssemos só loucos e indecentes!
Quem dera chupássemos os dedos,
Esquecêssemos o medo...
Quem dera chorássemos pura e exclusivamente por vontade de chorar,
Cantássemos sem a preocupação de desafinar,
Despíssemos nosso corpo no meio da rua
E, voltados para a lua, puséssemo-nos a uivar!

Mas a consciência não existe,
Só as regras persistem em d…

SINAIS DOS TEMPOS

Os olhos foram comidos Comidos foram os ouvidos Costurada a boca Roubados os sentidos A coisa agora é outra A coisa agora é rouca É louca a coisa pouca É tanta gente trouxa É tanta mente vaga E as vagas andam poucas A inteligência vazia Sucumbe à tecnologia E um smartphone sabe o que não sabe o homem E, no mundo, há tanta fome E tantos que descartam o que nem consomem E tanto homem no ponto Sentado feito tonto Esperando seu ônibus chegar Rodeado de tanta gente Incapaz de conversar E, se conversa, mente: Em quem se pode acreditar? E o ouvido no fone E os olhos na tela E o toque é touch E o touch é screen Alguém, por favor, olha para mim Que olhos? No rosto duas marcas cicatrizadas Alguém, por favor, diga algo para mim Que boca? A agulha costura o silêncio Alguém, por favor, dê ouvidos para mim? Que ouvido? Há tempos já foi consumido
É o fim.

Discurso Fúnebre

O amor sem esperança não tem outro refúgio senão a morte. (José de Alencar)


Não sei o que queres de mim Não sei se me queres assim Não sei se é este meu fim: Morrer por amar-te, Ser o brim de tua arte, Artesanato em tuas mãos, Dos pés, o teu chão.
Chegaste como quem nada quer e Arrasaste meu coração, mulher Fizeste-me escabelo de teus pés Fizeste-me laço em teus cabelos Fizeste-me canto em teus ouvidos Fizeste-me um e foste dez!
Deferiste os mais duros golpes, Foste baixa e ferina E eu, que nem sei brincar, Recebi a espada de tua esgrima. Feriste a um teu, fizeste teu galope Foste cobra, deste um bote Do poema, foste o mote Mataste a esperança ínfima Fizeste nascer a fonte Lágrima Deste origem à lástima Despiste tua máscara Meu coração esmiuçara E tinhas a voz tão calma E foste algoz, bicho feroz Devoraste minha alma.
Mas de solidão sucumbirá Teu coração atrofiará Serás amarga, carcará Terás embargo, isolar-te-á Terás tristeza, chorará Em tua própria aspereza, há de te arranhar Quando,…