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Confronto

          E a borboleta me desafia. Olha-me lá de seu canto – silenciosa, à espreita. Ela me obriga a usar orações curtas. Não tenho opção: a presença dela me faz escrever assim. Não sei o que ela tem, mas algo nela me provoca. Talvez sejam suas asas, prenúncio do voo; talvez seu silêncio, prenúncio da ação; talvez sua presença, prenúncio de uma ausência futura. Sim. Ausência futura. Quando ela não estiver mais ali, restará o vazio – o triste e agoniante vazio.
          Não é só ela quem me desafia: qualquer inseto me soa como afronta. Os motivos são os mesmos: prenúncio de voo, ação e ausência futura. Quando me acostumo a vê-los, já se foram. Quando quero que se vão, ainda estão. Eu não dito mais nada, mesmo: eles decidem por si, ou por seus instintos – sei lá o que rege um inseto, não sei nem os motivos que ME regem.
         Mas a borboleta está lá. PA-RA-DA. ES-TÁ-TI-CA. Confrontamo-nos silenciosamente (quase isso, não fosse o “tic-tic” das teclas que aperto). Ah, ela não está nem aí para mim, pois já não é lagarta: evoluiu, está pronta, acabada – já pode morrer em paz. Terminada sua metamorfose, pode desafiar quem quer que seja – já não se importa. Encara-me e sabe que estou inacabado, rindo-se de minha desgraça (ou graça de estar ainda em preparação, de nunca estar pronto). 
          De repente, ela chacoalha as asas meio que num choro contido: inveja-me, sem saber que não está pronta coisa nenhuma: estamos todos em constante mutação. O voo vem logo depois que ela percebe que nenhum de nós suportará encarar e ser encarado por muito tempo. A ação dela é rápida, conforme o esperado. Resta-me ausência, agora presente no seu lugar. Resolvo que também eu não ficarei aqui: voarei nas asas do meu pensamento. Até breve! 

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