A noite
A noite que me abre passagem,
Também me interroga:
Em cada passo desta viagem,
Minhas certezas se revogam.
À noite, sozinho,
Sou eu o meu caminho.
Não importa o clima: faz sempre frio.
O bafo da voz não é quente, é um
gélido desafio.
Quantas vezes mais terei que cair
Para desistir de levantar?
Quantas vezes terei
de ruir
Para ver que não
vale sonhar?
Quantas vezes terei
que cair
Para descobrir que
não nasci para voar?
Quantas vezes terei
de me excluir
Para perceber que
não pertenço a este lugar?
E a noite, com seu
timbre estrondoso,
Ri-se de mim,
pequeno e medroso.
Encara-me com seus
olhos mais frios que o frio,
E que correm como
um rio.
Eu me arrepio,
Pois sei que estou
por um fio.
Acontece que nunca
tive medo de meu tempo breve,
Se o tempo quiser,
ele que me leve.
Abro os braços, e
faço meu canto:
Não vou deixar de
cair,
Pois estarei sempre
a caminhar;
Se eu me perder,
Será por tentar me
achar;
Se as asas do sonho quebrarem,
Construirei um avião;
E, se tudo desmoronar,
Farei do céu o meu chão.
Calo-me e a voz também emudece.
A noite, parece, esquece-me
E some.
Sigo seu exemplo: sumo com o vento,
Na noite me escondo.
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