Pular para o conteúdo principal

A luz

          Em épocas de começo ou recomeço, sempre há uma música que acaba se tornando “trilha sonora” de minha vida – incrível isso. Por exemplo, quando ingressei na Etec “Francisco Garcia” (mais conhecida como Industrial) havia uma música de Milton que não saía de mim: SOLAR.
     Ah, “Solar”! Até hoje uma bela tradução de mim, mesmo quando intraduzível! Cada uma de suas estrofes mostravam exatamente aquilo que eu sentia naquele lugar, até então, estranho repleto de pessoas estranhas. Nunca fui social e, na verdade, ainda não sou – então fazia da música minha companhia.
          Amparava-me em cada verso, cada linha me era eterno aconchego em um momento turbulento. Você talvez me entenda se conhecer ou procurar a letra. Aliás, facilitarei seu trabalho: aí está ela:

Solar
Venho do sol
A vida inteira no sol
Sou filho da terra do sol
Hoje escuro
O meu futuro é luz e calor

De um novo mundo eu sou
E o mundo novo será mais claro
Mas é no velho que eu procuro
O jeito mais sábio de usar
A força que o sol me dá

Canto o que eu quero viver
É o sol
Somos crianças ao sol
A aprender e viver e sonhar
E o sonho é belo
Pois tudo ainda faremos
Nada está no lugar?
Tudo está por pensar
Tudo está por criar

Saí de casa para ver outro mundo, conheci
Fiz mil amigos na cidade de lá
Amigo é o melhor lugar
Mas me lembrei do nosso inverno azul

Eu quero é viver o sol
É triste ter pouco sol
É triste não ter o azul todo o dia
A nos alegrar
Nossa energia solar
Irá nos iluminar
O caminho

          Sim, meu presente ainda me era tenebroso, mas tinha esperança num futuro mais claro (de luz e calor). Futuro esse que eu poderia construir, pois “tudo está por pensar” e “por criar”!  E a música pareceu uma profecia: a nova escola (minha “cidade de lá”), trouxe-me vários amigos – e “amigo é o melhor lugar”.
          Acho que é esse o intuito da música, da poesia (e, inclusive, deste texto): servir de amparo, trazer emoção, esperança. E assim o foi: Solar, de Milton Nascimento, foi a luz do sol a clarear meu caminho, foi meu aparo e minha amiga.
          Isso provavelmente também já ocorreu com você – se não, desculpe-me a anormalidade. E, essa música, foi só um exemplo de algo que já aconteceu várias vezes comigo, em meus começos ou recomeços. O poeta costuma fazer isto: pôr luz nos caminhos alheios – assim foi e é Milton para mim. E então aprendo: mesmo quando tudo parecer perdido, haverá sempre uma “energia solar” iluminando meus caminhos –  então, permaneço firme. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Carpe diem

O tempo não existe.
Como podereis dizer que o tempo passa
Só pela aparência que muda,
Pelo Sol que se esconde
E pelas mudanças climáticas?
Como podereis afirmar que passa o tempo
Só pelo que foi transcorrido,
Pelo que foi esquecido
E pelas horas trágicas?

O tempo, hum, ele não existe.
Não existe, também, a vida;
Não existem os sonhos;
Não há caminhada nem há olhos tristonhos
— Mas a tristeza existe.
Há a coisa chamada felicidade, também;
Há o medo;
Há o descaso e o desdém.

O tempo não existe.
Não há senão a grande ilusão da existência
Que se equilibra entre a razão e a demência,
Entre a pureza e a indecência.
Quem dera fôssemos só loucos e indecentes!
Quem dera chupássemos os dedos,
Esquecêssemos o medo...
Quem dera chorássemos pura e exclusivamente por vontade de chorar,
Cantássemos sem a preocupação de desafinar,
Despíssemos nosso corpo no meio da rua
E, voltados para a lua, puséssemo-nos a uivar!

Mas a consciência não existe,
Só as regras persistem em d…

SINAIS DOS TEMPOS

Os olhos foram comidos Comidos foram os ouvidos Costurada a boca Roubados os sentidos A coisa agora é outra A coisa agora é rouca É louca a coisa pouca É tanta gente trouxa É tanta mente vaga E as vagas andam poucas A inteligência vazia Sucumbe à tecnologia E um smartphone sabe o que não sabe o homem E, no mundo, há tanta fome E tantos que descartam o que nem consomem E tanto homem no ponto Sentado feito tonto Esperando seu ônibus chegar Rodeado de tanta gente Incapaz de conversar E, se conversa, mente: Em quem se pode acreditar? E o ouvido no fone E os olhos na tela E o toque é touch E o touch é screen Alguém, por favor, olha para mim Que olhos? No rosto duas marcas cicatrizadas Alguém, por favor, diga algo para mim Que boca? A agulha costura o silêncio Alguém, por favor, dê ouvidos para mim? Que ouvido? Há tempos já foi consumido
É o fim.

Discurso Fúnebre

O amor sem esperança não tem outro refúgio senão a morte. (José de Alencar)


Não sei o que queres de mim Não sei se me queres assim Não sei se é este meu fim: Morrer por amar-te, Ser o brim de tua arte, Artesanato em tuas mãos, Dos pés, o teu chão.
Chegaste como quem nada quer e Arrasaste meu coração, mulher Fizeste-me escabelo de teus pés Fizeste-me laço em teus cabelos Fizeste-me canto em teus ouvidos Fizeste-me um e foste dez!
Deferiste os mais duros golpes, Foste baixa e ferina E eu, que nem sei brincar, Recebi a espada de tua esgrima. Feriste a um teu, fizeste teu galope Foste cobra, deste um bote Do poema, foste o mote Mataste a esperança ínfima Fizeste nascer a fonte Lágrima Deste origem à lástima Despiste tua máscara Meu coração esmiuçara E tinhas a voz tão calma E foste algoz, bicho feroz Devoraste minha alma.
Mas de solidão sucumbirá Teu coração atrofiará Serás amarga, carcará Terás embargo, isolar-te-á Terás tristeza, chorará Em tua própria aspereza, há de te arranhar Quando,…