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Rotina

É um ritual de todos os dias: o homem – um senhor moreno e gordo – acorda antes do sol brotar no céu e vai ao bar. Claro que, assim, tão cedo, o bar ainda nem está aberto – mas o andar do homem é lento, trôpego, quase inexistente.
Passa a manhã toda no bar, rindo alto e falando bobagens. Por volta do meio dia, quando o sol arde soberano no céu, ele resolve voltar para casa. Sim, ele precisa esperar que o sol brilhe alto no céu para voltar, acredita que assim a bebida surte melhor efeito: fermenta na barriga e faz com que ele fique ainda mais embriagado. Verdade ou não, com ele funciona.
Duas horas da tarde, como de costume, ele desce a rua de minha casa. Sim, ainda está a caminho de sua casa, mas, como já disse, suas pernas não permitem caminhar mais rápido. Vem falando sozinho, trazendo alguns Halls na mão, talvez para disfarçar um pouco o bafo de cana azeda. Esse homem, neste estado em que agora está, desconhece a calçada: caminha no meio da rua. Passa uma moto ao seu lado, ele parece que não vê, tão absorto que está.
Finalmente ele chega até mim, sorri e solta um “Ô menino! Bom dia!”. Respondo “Bom dia!”, primeiro porque é o que deve ser feito, segundo porque hoje é realmente um dia bom: há um sol (se houvesse chuva, a beleza seria a mesma), nuvens majestosas, borboletas brincando entre as poucas flores que há em minha calçada... Penso: se houvessem mais flores, talvez não clamaríamos tanto a ausência das borboletas. Tantas coisas poderiam e podem ser, mas não são. Volta a falar sozinho e continua descendo.
Como é corriqueiro, enquanto ele desce, a mulher sobe a rua. Cumprimentam-se, como era de se imaginar. Ela é roliça, tem uma voz estridente, andar jocoso e um grande rabo de cavalo que dança para lá e para cá conforme o balançar de seu corpo. Sobe e desce diversas vezes, é seu ofício: casa-negócio, negócio-casa. E segue indecisa sobre o que eleger como prioritário. Resultado: tudo segue uma bagunça.
O homem some na esquina, ela surge quase que na minha frente, cobrindo o sol – eclipse. Ela sorri para a mulher que, agachada, cuida das plantas. Faz um comentário qualquer, como sempre faz, e entra em sua casa. Entra só para sair segundos depois com algo debaixo dos braços. Novamente, enquanto anda, rua abaixo, os cabelos chacoalham.
Agora a rua está vazia, no que diz respeito às pessoas, que é como eu mais gosto que ela esteja. Os pardais rolam nas poças d’água, as borboletas ainda giram entre as folhas das plantas, o vento sopra em meu rosto.
Nesse ritual de todos os dias, de pessoas que vem e vão e sobem e descem, só algo foge ao banal: minha figura do lado de fora do portão de casa, fugindo de minha solidão por escolha. Não, não é para me fazer social que saio de casa, mas para assistir à vida: escrever não é só imaginar e sentir, é também viver.
E vivo como aquele homem: a vida dele se faz entre o bar e a casa, a minha entre a casa e a rua. Claro que nós dois somos e vivemos mais que isso, mas, agora, só isso nos define. Amanhã, provavelmente, não sairei de casa. Não nesse horário. Mas tenho certeza que ele estará descendo a rua, a mulher subindo com os cabelos que dançam. E eu estarei bem longe, mesmo estando tão perto.
Somos rotineiros e sabemos disso. Fazemos a mesma coisa todos os dias e isso nos basta. Às vezes fugimos do corriqueiro, como eu agora, aqui fora, neste horário. Sabemos, também, de outra coisa: na mesmice nossa de cada dia, nada é o mesmo – tudo se repete, mas nada é igual. Cada gesto, cada passo, cada instante... tudo sempre novo! Ah, novidade... você também se repete todos os dias, rotineira. 

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Não sei o que queres de mim Não sei se me queres assim Não sei se é este meu fim: Morrer por amar-te, Ser o brim de tua arte, Artesanato em tuas mãos, Dos pés, o teu chão.
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