Não tenhas medo!
Internado. Cinco anos de idade e estava internado. Motivo?
Urticárias oriundas de uma reação alérgica ao corante. Inchado feito uma bola,
vermelho e arranhado (por me coçar, nunca resisti a uma coceira).
Meus companheiros de quarto eram os melhores que eu poderia
ter: um garoto queimado em cinzas ainda fumegantes e uma pirralha inconveniente
que chamava minha mãe de Chica da Silva (maldita). Suas respectivas mães –
graças a Deus por elas – também estavam lá.
Confesso que minha estadia não foi de todo ruim: houve
momentos um tanto quanto engraçados. Aquilo foi uma mistura de céu, inferno,
terra e mar: inconstância. Mas pelo menos minha cama (que, ainda bem, era mais
confortável que a horrenda cadeira na qual minha mãe era forçada a dormir)
ficava ao lado de uma janela que me dava visão do que acontecia do lado de fora
daquele lugar – era uma vitória.
Nesses dias, internado, precisava encontrar meios de me
divertir – e isso não é difícil quando se é criança. Divertia-me colecionando
cartões telefônicos, brincando com um boneco que Priscila (um Cocker preto de
orelhas e patas carameladas) havia arrancado a cabeça – ainda posso me lembrar
de Sandra, mãe do garoto das cinzas (seria uma Fênix?) dizendo para ele ter
“cuidado com esse boneco, senão teria de que arranjar outro e dar para um
cachorro arrancar sua cabeça”.
Mas confesso que achava mais divertido aprontar com minha
mãe (não somos obrigados a ser santos): o banheiro dos internados (e de suas
mães, por tabela) era uma droga: água fria e – isso para minha mãe era a morte
– não possuíam espelhos! Solução: invadíamos o banheiro das enfermeiras (quando
minha mãe estava lá dentro, eu espionava pronto para anunciar a chegada da
enfermeira quando/caso ela viesse.
Ah, como eu detestava e amaldiçoava a cozinheira daquele
lugar (pobre desgraçada!). Todos os dias ela seguia o mesmo ritual (aliás, nem
sei se era sempre a mesma): aparecia na sala de estar (onde havia brinquedos
nos quais eu não tocava e uma TV de catorze polegadas que me era uma tortura ao
pescoço) e dizia: “João, o que você vai querer – aqui, seus olhos pareciam os
do demônio, tamanha malícia – macarronada com salsicha ou arroz com jiló?”.
Abro aqui um parágrafo para fazer uma não tão breve
observação: gente, eu tinha cinco anos! Raras são as crianças que preferem um
jiló sem graça (que até hoje não consigo comer, talvez por trauma) a uma
macarronada. Digo mais: o arroz mais parecia um maldito risoto de jiló: verde e
empapado. Que raio de pergunta era essa? Mas o pior ainda estava por vir.
Voltemos, portanto, à história.
Eu escolhia a macarronada, já lambendo os grossos beiços,
como um animal faminto. Mas eis que, passado algum tempo, ela (inspirada no
menino-Fênix?) ressurgia das cinzas para me dizer a patética desculpa: “Ah, o
macarrão tem salsichas (e elas são recheadas de corante), você terá que comer o
arroz com jiló mesmo”. Que tenho que
nada! Não comia! Passava o dia sem almoço nem janta: furtava todo o pacote de
bolacha água e sal – que ninguém o tocasse, por favor!
Tinha também uma faxineira que se parecia muito com a Sra. McGrady (se você já assistiu “Arthur”, sabe de quem estou falando).
Era a figura mais patética (coitada) daquele lugar: sumia com o banquinho que
eu usava para subir na minha cama de sete metros (graças a ela, aprendi a subir
na cama com um salto, o que me faz pensar que deveria ter seguido carreira
olímpica – salto com vara, aqui vou eu); perseguia-me com seu pano de chão
aonde quer que eu fosse, ninguém disse a ela que minhas urticárias não eram
contagiosas. No final das contas, comecei a me divertir com esses costumes
dela: carregava o banco mesmo que não fosse usá-lo e transitava de cá para lá e
de lá para cá – para ver até quando aquele pano viria atrás de mim.
A noite (ainda não me decidi se
era a melhor ou a pior parte) era a única parte do dia em que eu conseguia
sossego, pois poderia dormir – aliás, só depois das dez da noite, quando tomava
meu último remédio. Ah, agora me lembro: esse horário coincidia exatamente com
o horário da novela que mãe gostava: ela seguia para a sala de estar,
despedia-se de mim e dizia que na hora do remédio estaria comigo. Ledo engano
(e engraçado também): quando ela chegava, a enfermeira (que mais parecia o
Tohru tanto nas roupas que usava quando no modo pesadão de andar) já havia me
atacado com seu inconveniente remédio – e eu tinha que lamber até o fundo do
copinho, “para não desperdiçar o remédio”. Ironicamente, Tohru era a única
enfermeira que me agradava.
Havia, também, um médico (aguado
que só ele) que iria me ver todos os dias: chegava, avaliava o que julgava
necessário e dizia, sorrindo para minha desgraça, que até o Natal eu estaria em
casa – estávamos no começo do ano. Sarcasticamente, no dia que fui liberado
daquele lugar (milagrosamente sem nenhuma das urticárias que quase me mandaram
para um hospital de outra cidade na noite anterior) foi outro médico que foi
avaliar meu estado (não ter que tolerar aquele outro médico foi, para mim, a
maior prova da existência de Deus).
Mas, dentre todas as coisas que
passei – noites que não se decidiam entre calor e frio, faxineira, cozinheira e
banho frio – a imagem que permanece mais forte em minha memória é outra: minha
mãe, sentada ao lado de minha cama, colocando-me para dormir. Sim, naquele
lugar eu era incapaz de dormir sem que ela estivesse ao meu lado. Sorria e
dizia que iria cantar uma música, mas que era a voz de alguém maior que ela
dizendo aquelas palavras. Então, fechava os olhos e, com um sorriso no canto
dos lábios, cantava uma música que até hoje me ampara: Não tenhas medo. Agora,
nos dias de dor ou noites de pavor, não me avexo: há uma voz viva em mim que
grita: NÃO TENHAS MEDO. Não tenho.
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