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As palavras e eu

          As palavras batem à minha porta com veemência. A princípio, não quero abrir. Fecho-me a qualquer coisa que venha me procurar, não estou a fim de nada. Mas elas continuam, insistentes, numa batida que só eu ouço, como se precisem, unicamente, de mim.
          A insistência me sufoca, é um excesso em mim. Sim, a batida é de dentro para fora e não o contrário. Elas não clamam para entrar, mas suplicam para sair – está apertado aqui dentro. Mas eu sinto que, mesmo com toda esta necessidade de soltá-las, não conseguirei escrever nada.
          Então, ouço um sussurro. Elas desistem de bater, mas passam a dizer. Dizem que não preciso pensar em nada para escrever: elas guiarão minhas mãos. Fazemos, então, um acordo: para que não sufoquem, sento-me todos os dias com papel ou qualquer suporte que seja em mãos e permito que elas façam o que melhor entenderem.
          As palavras e eu: acordo íntimo, carne e espírito, um só. Elas, como Eva, são crias de minhas costelas. Nasceram, parece, unicamente para me acompanhar em meus caminhos, para rendilhar caminhos na minha alma. Sou seu suporte primeiro, mas elas não cabem só em mim, precisam escapar. Dou-lhes, portanto, a liberdade que precisam.
          Palavras: fiquem assim, bem perto de mim. Mas, quando ganharem a liberdade, não se esqueçam de mim, que eu também não me esquecerei de vocês. Vivamos assim: eu em vocês, vocês em mim. 

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Carpe diem

O tempo não existe.
Como podereis dizer que o tempo passa
Só pela aparência que muda,
Pelo Sol que se esconde
E pelas mudanças climáticas?
Como podereis afirmar que passa o tempo
Só pelo que foi transcorrido,
Pelo que foi esquecido
E pelas horas trágicas?

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Não existem os sonhos;
Não há caminhada nem há olhos tristonhos
— Mas a tristeza existe.
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Há o medo;
Há o descaso e o desdém.

O tempo não existe.
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Que se equilibra entre a razão e a demência,
Entre a pureza e a indecência.
Quem dera fôssemos só loucos e indecentes!
Quem dera chupássemos os dedos,
Esquecêssemos o medo...
Quem dera chorássemos pura e exclusivamente por vontade de chorar,
Cantássemos sem a preocupação de desafinar,
Despíssemos nosso corpo no meio da rua
E, voltados para a lua, puséssemo-nos a uivar!

Mas a consciência não existe,
Só as regras persistem em d…

SINAIS DOS TEMPOS

Os olhos foram comidos Comidos foram os ouvidos Costurada a boca Roubados os sentidos A coisa agora é outra A coisa agora é rouca É louca a coisa pouca É tanta gente trouxa É tanta mente vaga E as vagas andam poucas A inteligência vazia Sucumbe à tecnologia E um smartphone sabe o que não sabe o homem E, no mundo, há tanta fome E tantos que descartam o que nem consomem E tanto homem no ponto Sentado feito tonto Esperando seu ônibus chegar Rodeado de tanta gente Incapaz de conversar E, se conversa, mente: Em quem se pode acreditar? E o ouvido no fone E os olhos na tela E o toque é touch E o touch é screen Alguém, por favor, olha para mim Que olhos? No rosto duas marcas cicatrizadas Alguém, por favor, diga algo para mim Que boca? A agulha costura o silêncio Alguém, por favor, dê ouvidos para mim? Que ouvido? Há tempos já foi consumido
É o fim.

Discurso Fúnebre

O amor sem esperança não tem outro refúgio senão a morte. (José de Alencar)


Não sei o que queres de mim Não sei se me queres assim Não sei se é este meu fim: Morrer por amar-te, Ser o brim de tua arte, Artesanato em tuas mãos, Dos pés, o teu chão.
Chegaste como quem nada quer e Arrasaste meu coração, mulher Fizeste-me escabelo de teus pés Fizeste-me laço em teus cabelos Fizeste-me canto em teus ouvidos Fizeste-me um e foste dez!
Deferiste os mais duros golpes, Foste baixa e ferina E eu, que nem sei brincar, Recebi a espada de tua esgrima. Feriste a um teu, fizeste teu galope Foste cobra, deste um bote Do poema, foste o mote Mataste a esperança ínfima Fizeste nascer a fonte Lágrima Deste origem à lástima Despiste tua máscara Meu coração esmiuçara E tinhas a voz tão calma E foste algoz, bicho feroz Devoraste minha alma.
Mas de solidão sucumbirá Teu coração atrofiará Serás amarga, carcará Terás embargo, isolar-te-á Terás tristeza, chorará Em tua própria aspereza, há de te arranhar Quando,…