As palavras e eu
As palavras batem à minha porta com veemência. A princípio,
não quero abrir. Fecho-me a qualquer coisa que venha me procurar, não estou a
fim de nada. Mas elas continuam, insistentes, numa batida que só eu ouço, como
se precisem, unicamente, de mim.
A insistência me sufoca, é um excesso em mim. Sim, a batida
é de dentro para fora e não o contrário. Elas não clamam para entrar, mas
suplicam para sair – está apertado aqui dentro. Mas eu sinto que, mesmo com
toda esta necessidade de soltá-las, não conseguirei escrever nada.
Então, ouço um sussurro. Elas desistem de bater, mas passam
a dizer. Dizem que não preciso pensar em nada para escrever: elas guiarão
minhas mãos. Fazemos, então, um acordo: para que não sufoquem, sento-me todos
os dias com papel ou qualquer suporte que seja em mãos e permito que elas façam
o que melhor entenderem.
As palavras e eu: acordo íntimo, carne e espírito, um só.
Elas, como Eva, são crias de minhas costelas. Nasceram, parece, unicamente para
me acompanhar em meus caminhos, para rendilhar caminhos na minha alma. Sou seu
suporte primeiro, mas elas não cabem só em mim, precisam escapar. Dou-lhes,
portanto, a liberdade que precisam.
Palavras: fiquem assim, bem perto de mim. Mas, quando
ganharem a liberdade, não se esqueçam de mim, que eu também não me esquecerei
de vocês. Vivamos assim: eu em vocês, vocês em mim.
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