Pular para o conteúdo principal

Adeus, amor.

Naquele olhar, a luz do sol. Seu rosto irradiava luz para todos os lados, fonte primária que era. Mas apenas eu via, ninguém mais. Somente eu enxergava, ali, motivo de alegria; somente eu seguia aquele rosto, assim como o girassol busca o sol. Aquela figura arrastava meu olhar por onde ia, não podia controlar ou decidir entre olhar e não olhar.
Seu corpo esguio era mar onde o meu corpo, rio que é, queria desaguar. Seu desenho era suave, suas cores corretas, seu toque macio e sua presença era divina. Como era possível existir assim, existência tão correta?
Mas chegou o outono e o amor desnudou-se, perdeu as folhas. Uma mão impiedosa veio e cortou seus galhos, seu tronco. O amor despencou no chão e eu, impotente que era, estava apenas sentado olhando.
Veio o inverno e minha alma congelou. Fique estático, paralisado. Não sabia onde escondera os cobertores e os agasalhos, já não havia mais amor para esquentar a alma. Nada de olhar a iluminar e aquecer, nada de corpo para desaguar. Era só eu. Só.
O olhar, antes luz, fez-se treva; o seu corpo, antes mar, fez se sangue; e o amor, antes forte, fez-se ódio. O motivo? Quem sabe! O vento passou e tirou as coisas do lugar, não sem consentimento.
 Que fiz eu? Pus-me a aguardar a primavera e ela veio, é claro: vieram várias primaveras, mas nelas não haviam mais flores. As primaveras arrastavam-se mais frias que o inverno! Uma, duas... sessenta e sete primaveras. E nada! Então percebi: não foi a pessoa amada quem morreu em mim – morreu o próprio amor.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Carpe diem

O tempo não existe.
Como podereis dizer que o tempo passa
Só pela aparência que muda,
Pelo Sol que se esconde
E pelas mudanças climáticas?
Como podereis afirmar que passa o tempo
Só pelo que foi transcorrido,
Pelo que foi esquecido
E pelas horas trágicas?

O tempo, hum, ele não existe.
Não existe, também, a vida;
Não existem os sonhos;
Não há caminhada nem há olhos tristonhos
— Mas a tristeza existe.
Há a coisa chamada felicidade, também;
Há o medo;
Há o descaso e o desdém.

O tempo não existe.
Não há senão a grande ilusão da existência
Que se equilibra entre a razão e a demência,
Entre a pureza e a indecência.
Quem dera fôssemos só loucos e indecentes!
Quem dera chupássemos os dedos,
Esquecêssemos o medo...
Quem dera chorássemos pura e exclusivamente por vontade de chorar,
Cantássemos sem a preocupação de desafinar,
Despíssemos nosso corpo no meio da rua
E, voltados para a lua, puséssemo-nos a uivar!

Mas a consciência não existe,
Só as regras persistem em d…

SINAIS DOS TEMPOS

Os olhos foram comidos Comidos foram os ouvidos Costurada a boca Roubados os sentidos A coisa agora é outra A coisa agora é rouca É louca a coisa pouca É tanta gente trouxa É tanta mente vaga E as vagas andam poucas A inteligência vazia Sucumbe à tecnologia E um smartphone sabe o que não sabe o homem E, no mundo, há tanta fome E tantos que descartam o que nem consomem E tanto homem no ponto Sentado feito tonto Esperando seu ônibus chegar Rodeado de tanta gente Incapaz de conversar E, se conversa, mente: Em quem se pode acreditar? E o ouvido no fone E os olhos na tela E o toque é touch E o touch é screen Alguém, por favor, olha para mim Que olhos? No rosto duas marcas cicatrizadas Alguém, por favor, diga algo para mim Que boca? A agulha costura o silêncio Alguém, por favor, dê ouvidos para mim? Que ouvido? Há tempos já foi consumido
É o fim.

Discurso Fúnebre

O amor sem esperança não tem outro refúgio senão a morte. (José de Alencar)


Não sei o que queres de mim Não sei se me queres assim Não sei se é este meu fim: Morrer por amar-te, Ser o brim de tua arte, Artesanato em tuas mãos, Dos pés, o teu chão.
Chegaste como quem nada quer e Arrasaste meu coração, mulher Fizeste-me escabelo de teus pés Fizeste-me laço em teus cabelos Fizeste-me canto em teus ouvidos Fizeste-me um e foste dez!
Deferiste os mais duros golpes, Foste baixa e ferina E eu, que nem sei brincar, Recebi a espada de tua esgrima. Feriste a um teu, fizeste teu galope Foste cobra, deste um bote Do poema, foste o mote Mataste a esperança ínfima Fizeste nascer a fonte Lágrima Deste origem à lástima Despiste tua máscara Meu coração esmiuçara E tinhas a voz tão calma E foste algoz, bicho feroz Devoraste minha alma.
Mas de solidão sucumbirá Teu coração atrofiará Serás amarga, carcará Terás embargo, isolar-te-á Terás tristeza, chorará Em tua própria aspereza, há de te arranhar Quando,…