IRREGULAR
Encontro-me cansado, exaurido. Estar
cansado é coisa que me estressa, estar estressado é coisa que me cansa. Não sei
qual deles surgiu primeiro: cansaço ou estresse? Tanto faz! Sei que estão de
mãos dadas comigo, um à esquerda e o outro à direita – e isso já é incômodo o
bastante.
Engraçado isso... cansar-se e estressar-se
em tempo de fazer justamente o contrário! Talvez eu nunca tenha feito o
contrário: quando foi a última vez em que não fiquei cansado ou estressado?
Quem sabe foi ontem, quem sabe nunca! Estou tão farto que mal consigo acessar
minha memória.
Falando nisso, saiba que estou inacessível: a
você e a mim. Inacessível não por ser inalcançável – aliás, alcançar-me não é
matéria que carece muito de esforço – mas por estar de portas fechadas. Fechadas?
Mais que isso: lacradas, vedadas. Até quando? Talvez para sempre, talvez por
dois segundos!
Não... não faço questão de ser constante,
estável, sempre o mesmo. Não, não quero ser aquele a quem todos decifram com
facilidade, que pode ser rotulado, que possui características que todos saibam
ser minhas: que minha única característica seja não possuir característica
alguma!
Não, não me pergunte quem eu sou! Não irei
dizê-lo: não porque eu não tenha uma resposta, mas porque não me compete
traduzir aquilo que sou a ninguém! Algum dia, quem sabe, eu não acabe tentando
fazê-lo sem que alguém me peça? Quem sabe eu não o faça só para me contradizer
posteriormente? Sim, sou contraditório; sim, sou inconstante; sim, sou sempre o
completamente irregular – mas sempre completo, pois, mesmo que pela metade, sou
inteiro em cada parte de mim.
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