Fome de justiça
O cachorro estava lá, quase morto.
Deitara-se havia pouco tempo, talvez porque suas pernas magras não aguentavam
sustentar seu pouco corpo. Estava trêmulo, sujo, abandonado – o pobre cão não
tinha vez no mundo, por isso, lançara-se ali mesmo sem o mínimo sinal de esperança.
O animal, no entanto, não permaneceria
sozinho ali por muito tempo: poucos instantes depois, um outro animal se
colocara ao lado dele: era um homem, mais sujo que o cachorro. Chegou abanando
o corpo, com a língua de fora, correndo atrás do rabo – procurava a posição
adequada para se deitar. Demorou-se nesse ritual cerca de cinco minutos, até
que, enfim, se jogou aos pés do animal. Ele gemia, chorava, parecia que latia.
Passaram uma, duas... cinquenta pessoas!
Umas olhavam torto, como se o homem fosse um vira-latas e o cão um vagabundo;
como se o cão pudesse pedir esmola a qualquer momento e, o homem, mordê-las
(seria ele vacinado?); como se, cão e homem, mijassem nos seus pés como mijam
em um poste.
O cão olha para o homem (com olhar de
piedade?) e, vendo seu sofrimento, começa acariciar seus pelos. O homem,
esboçando – não sem algum esforço – um sorriso, acaricia os cabelos do cão.
Solidariedade no momento derradeiro? Não; eles não acreditam que irão morrer,
não agora: esperam que alguém lhes estenda a mão, assim como eles estenderam as
patas um ao outro.
Que fizeram eles para estarem ali? Não importa,
não mudará nada saber: o motivo não fará deles menos cão e menos homem,
justificar o sofrimento deles não fará de nós melhores que eles. Não, eles não
precisam de nossa hipocrisia – carecem de solidariedade. Mas quem lhes
estenderá a mão? Será que alguém, em algum momento, irá fazê-lo?
Quem são esses sofredores? São uma parte
de nós, são um de nossos membros que sofre, são um órgão que dói! Como
poderemos nós estarmos bem, se há algo em nós que sofre? Se algo não está certo
com o corpo, não é o todo que padece? O cão e o homem são um só, não são dois.
Uma única verdade atirada a nossa porta clamando por ser escutada. Não, não estaremos
bem enquanto houver sofrimento.
E o que faremos agora? Vamos nos sentar
frente as nossas janelas e pedir ao céu um milagre? Somos todos médicos capazes
de curar a indiferença, só precisamos olhar ao lado. Deixaremos para o próximo
ano as providências ou enxergaremos que o amor é agora? A verdade atirada em
nossa porta pode morrer sem ser ouvida, pode morrer com fome – fome de justiça.
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