Eternidade
Você anda distante de mim, eu sei. Já há algum tempo que você está
assim, distante de tudo, longe de todos e ausente – tanto que dói. Não sei o
que está acontecendo, você estava tão bem...
Lembra-se daquela quarta-feira de agosto do ano passado? Você queria
tanto ir ao parque, sentar na grama e fazer um piquenique olhando o riacho – o
velho riacho, límpido e majestoso, só não é mais bonito que o vetusto
coqueiral, que você adora. O dia estava lindo, cheirava a sonhos e tinha cor
azul; seu irmão, insuportavelmente agitado, brincava de esconde-esconde; as
borboletas passeavam pelo ar, com tanta graça que pareciam você; e eu, com uma
revolução de sentimentos gritando no peito, segurava os seus macios cabelos,
que não são crespos como os meus. E passamos o dia todo assim, folgados, olhos
nos olhos e o coração num só ritmo.
Não entendo o que está acontecendo: você assim, distante; eu aqui,
deitado; e esses homens, uniformes brancos e de luvas nas mãos, olham-me e
afirmam que sou um sobrevivente. Mas você não está aqui, por isso, tudo parece
infinitamente triste – hoje, desde que acordei neste lugar, completam-se três
dias sem te ver. Nosso último encontro foi... Que dia é hoje? Você também não
sabe? Bom, era um sábado, íamos a um shopping em Ribeirão Preto, alegres e...
Não consigo me recordar de mais nada.
Acho que vou perguntar àquela moça, toda de branco e cabelos presos, que
lugar é este e por que esta cama tão desconfortável. Estes lençóis, que mal
cobrem e mal aquecem, não servem. Moça,
por favor, venha aqui. Moça? Ela parece que não me escuta! Que raio de lugar é este? Parece-me tão
familiar essa estrutura e esse cheiro...
Você estava tão linda naquele sábado: os olhos brilhavam e tinham aquela
cor que só os seus são dignos de ter; a pele, macia e nevada, reluzia à luz do
sol; e o corpo, leve e angelical, parecia dançar dentro do vestido de estampa
florida. Recordo-me, finalmente: não chegamos ao shopping, algo aconteceu
antes...
Vieram me ver, injetaram algo em minhas veias, não sei por que motivo,
já que estou bem: estou tão leve que nem sinto minhas pernas. A moça, que
outrora não me ouviu, babulcia palavras indecifráveis a um homem baixo e
ensebado, mas de expressão séria. Caminham em minha direção, parece que
finalmente terei explicações, pois dizem que admiram minha força apesar do...
Minha cabeça lateja, o peito dói, as mãos suam e falta-me ar. Isso
porque, de repente, aquilo que minha memória tentava esconder me veio à tona:
ela, a estrada e eu; o carro, a estrada outra vez e um caminhão; o caminhão, o
carro e um baque surdo; depois, sirenes, bombeiros e escuridão...
Você! Onde está você? Eu preciso saber! Você... Você está morta! Sim,
essa é a notícia que vieram me trazer: não houve sequer chances de resgatá-la,
sua morte foi imediata. E eu, que faço agora? Viver dói, sem você dói.
Você estava do lado que o caminhão acertou em cheio, eu estava do outro;
você foi massacrada e eu tornei-me um paraplégico completo; eu não morri, você
sim. Que levasse também a mim, o maldito caminhão!
Ah, a quarta-feira de agosto! Depois de terminado o lanche, você me
dissera que aquele era o dia mais feliz de sua vida e pediu que eu não me
esquecesse dele. Eu, obediente, não esqueci. Não esqueço porque não posso,
porque não quero e porque essa é a única forma de eternizar você.
Despedir-se dói tanto! Não poder se despedir parece ser ainda pior! O
adeus que não dei, o abraço que não se tornou gesto, o féretro que não
carreguei... Mas, embora triste, ainda tenho forças para continuar: carrego o
seu sorriso, aquele da quarta-feira de agosto, sabe? Outros agostos virão, eu
sei... E mais uma vez seremos você e eu, sentados em nuvens de algodão, de mãos
eternamente entrelaçadas, fitando a imensidão... do infinito.
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