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Doação

Olha, meu bem, a vida está sangrando!
Esse líquido rubro, espesso e grudento,
Torna meu caminhar mais difícil.

Como sair do lugar,
Se o sangue é areia movediça?
Como ficar no lugar,
Se o sonho de seguir me enfeitiça?

O sangue tem um cheiro adocicado,
O sangue tem o cheiro do pecado,
O sangue tem o cheiro da morte
(Ou será o cheiro da vida,
Que, apesar de tudo, segue forte?)

Agacho-me para prová-lo
Seu sabor é meu sabor.
Percebo: é a mim que experimento.

Olha, meu bem, minha vida está sangrando.
Este líquido, quase sólido, sou eu.
Olha, meu bem, eu estou passando
Em cada gota deste sangue, eu.

Deste sangue nasce o poema;
Nele, o dilema de ser quem sou.
Quando não sou suficiente, transbordo
Vou a bordo das palavras, transcrevo-me.

Agora vê?
Não, não é ao poema, mas a mim que lê.
Se sou doce ou amargo, não se zangue:
As palavras foram escritas com meu sangue:
Ao lê-las, você o bebe
Ao lê-las, brinda comigo.

E o sangue, meu bem,
Escorre do meu corpo e resolve habitar o seu.

Doação. 

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Carpe diem

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