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Canção do arrependido

Cadê meus óculos?
Não vejo nada (que me sirva de consolo)
Olha, os ósculos (dádivas de outrora)
Marcam momentos (a traição de agora).

Dê-me os óculos
Que cego não quero andar
Quero ver o que acontece
Para enxergar meus motivos de lutar.

Será que me tapa os olhos para me proteger?
(Eu nem sei quem é você!)
Será que a visão me fará tremer?
(Pior é tremer sem saber o porquê!)

Será que tem medo do que vou ver?
(Tenho medo de não saber!)
Será que acha que vou me assustar?
(Há tanta coisa pela qual lutar...)

É, não devia ter lhe dado poder.
É, antes do ceder, deveria vir o conhecer.
É pior saber que existem mais como você.
Pior: há mais como eu, que em tudo crê!

E eu nem sabia quem era você...
Deixei que me tapasse os olhos,
Não quis ver.
E eu nem sabia quem era você...
Deixei que fizesse de meus sonhos entulhos,
Não quis saber.

Mas hoje quero meus óculos,
Quero, de novo, enxergar
(Destape meus olhos, solte-me: eu quero passar).
Cansei de dormir, resolvi acordar;
Cansei de me anular, decidi aparecer
(Ei, me solte, eu quero crescer!)

De óculos eu vejo...
Ah, seu porco anda gordo
(Olha o meu, tão magrinho!)
Oh, você tem de tudo
(E meu mundo anda mudo).
Como cresceu tanto assim?
Agora eu vejo: tirava de mim.

Mas agora eu vejo,
Agora, despejo
Agora, de óculos
Agora, o futuro
(Não mais lhe aturo!)

Sai, sangue suga
Não lhe quero ao meu lado.
Sai, vai, cai (ai!)
Quero você bem longe daqui!
Pus meus óculos,
Tornei a ver:
Agora sou eu no poder,
No poder de mim.

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