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Reminiscências de minha terra

Os lugares são as pessoas. São as vidas que abrigam, as mudanças que sofrem. Os lugares são meu jeito de olhar para eles. Descoberta que faço em uma curta, mas produtiva, conversa com meu avô.
   Em nosso passeio de carro, ele viajava em suas lembranças- sua viagem preferida. Aponta um galpão e diz:
   — Mococa já teve ferrovias, João. Ali mesmo passavam os trilhos... Legal isso, passear de trem quero dizer, dentro dele outras vidas, fora a contemplação. Contemplar a vida!
   “Contemplar a vida...” repito em pensamento. Frase simples, mas de muitos significados. Sigo o conselho de meu avô e resolvo experimentar a contemplação.
   Da janela do carro avisto um menino. Roda um pião contente da vida, pobre, o sol brilha alto, indiferente à pobreza de muitos. Ao garoto não falta nada, tem amor e é feliz. O pião, provavelmente feito pelas mãos calejadas do pai, continua a girar.
   De repente, a curva. Não vejo mais o menino, mas os pensamentos continuam. Nos olhos do menino, a essência do meu lugar. Nos olhos dele, a verdade roda como um pião.
   Vejo em seus olhos tardes de brincadeiras na praça, a esperança trazida no soar do sino. Vejo abraços amigos, lendas, as cirandas na escola. Para o garoto tudo era lindo. Em sua inocência, redescubro meu lugar.
   Mococa das minhas lembranças, das recordações do meu avô, da beleza de uma mãe embalando o filho, do padeiro que sorri ao entregar o pão à dona Maria, cliente fiel. Lugar de matizes esplendidas por todos os cantos. Aqui, em cada vida, um novo mundo!
   Mococa das palmeiras, do cheiro de café torrado, do trabalhador que cuida da família, de pipas cortando o céu e bola rolando no chão, de aves que cantam... Terra que guarda história de grandes nomes, tais como Bruno Giorgi e Rogério Cardoso, mas que, sem discriminação, é também guardiã de pequenos.
   Só então percebo o silêncio que se instala dentro do carro. Meu avô, atento, aguarda respostas.
   — Sabe, vô? – digo, finalmente – às vezes, tudo o que o mundo precisa é aprender a beleza de olhar.
   Outra vez o silêncio. Volto os olhares para o mundo a minha volta, crente que há ainda muito que ver. Sinto o cheiro de café torrado, aroma de minha terra, e só então noto que estou com fome, e que estamos chegando em casa. Já é fim de tarde, vejo o pôr-do-sol, e ele é prova de que em minha terra o espetáculo da existência não tem hora para acabar.

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Carpe diem

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Como podereis dizer que o tempo passa
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Pelo Sol que se esconde
E pelas mudanças climáticas?
Como podereis afirmar que passa o tempo
Só pelo que foi transcorrido,
Pelo que foi esquecido
E pelas horas trágicas?

O tempo, hum, ele não existe.
Não existe, também, a vida;
Não existem os sonhos;
Não há caminhada nem há olhos tristonhos
— Mas a tristeza existe.
Há a coisa chamada felicidade, também;
Há o medo;
Há o descaso e o desdém.

O tempo não existe.
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Que se equilibra entre a razão e a demência,
Entre a pureza e a indecência.
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Quem dera chupássemos os dedos,
Esquecêssemos o medo...
Quem dera chorássemos pura e exclusivamente por vontade de chorar,
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Mas a consciência não existe,
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SINAIS DOS TEMPOS

Os olhos foram comidos Comidos foram os ouvidos Costurada a boca Roubados os sentidos A coisa agora é outra A coisa agora é rouca É louca a coisa pouca É tanta gente trouxa É tanta mente vaga E as vagas andam poucas A inteligência vazia Sucumbe à tecnologia E um smartphone sabe o que não sabe o homem E, no mundo, há tanta fome E tantos que descartam o que nem consomem E tanto homem no ponto Sentado feito tonto Esperando seu ônibus chegar Rodeado de tanta gente Incapaz de conversar E, se conversa, mente: Em quem se pode acreditar? E o ouvido no fone E os olhos na tela E o toque é touch E o touch é screen Alguém, por favor, olha para mim Que olhos? No rosto duas marcas cicatrizadas Alguém, por favor, diga algo para mim Que boca? A agulha costura o silêncio Alguém, por favor, dê ouvidos para mim? Que ouvido? Há tempos já foi consumido
É o fim.

Discurso Fúnebre

O amor sem esperança não tem outro refúgio senão a morte. (José de Alencar)


Não sei o que queres de mim Não sei se me queres assim Não sei se é este meu fim: Morrer por amar-te, Ser o brim de tua arte, Artesanato em tuas mãos, Dos pés, o teu chão.
Chegaste como quem nada quer e Arrasaste meu coração, mulher Fizeste-me escabelo de teus pés Fizeste-me laço em teus cabelos Fizeste-me canto em teus ouvidos Fizeste-me um e foste dez!
Deferiste os mais duros golpes, Foste baixa e ferina E eu, que nem sei brincar, Recebi a espada de tua esgrima. Feriste a um teu, fizeste teu galope Foste cobra, deste um bote Do poema, foste o mote Mataste a esperança ínfima Fizeste nascer a fonte Lágrima Deste origem à lástima Despiste tua máscara Meu coração esmiuçara E tinhas a voz tão calma E foste algoz, bicho feroz Devoraste minha alma.
Mas de solidão sucumbirá Teu coração atrofiará Serás amarga, carcará Terás embargo, isolar-te-á Terás tristeza, chorará Em tua própria aspereza, há de te arranhar Quando,…