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Desencontrado

Esqueceu-se. Que mal há nisso? Por acaso não somos todos nós fadados ao esquecimento? Não é cotidiano esquecer? Não é rotineiro ser esquecido? Às favas com tudo isso! Esqueceu e pronto. Ou quase isso, talvez ponto, talvez vírgula. Fico com a vírgula.
O fato é que precisava falar a seu vizinho algo de extrema importância, mas lhe faltava o nome do sujeito. Qual seria? Não é verdade que moram lado a lado há dezessete anos? Então por que a ausência do nome? Só agora, rente à porta de entrada ameaçando bater, nota que desconhece o homem que vive próximo a ele. E quanta distância há entre essas almas tão próximas!
Levou a mão à porta, quase a tocou. Mas não o fez e nem o faria enquanto não recordasse o nome do meliante. Quando se esquecera dele? Quando a rotina se tornara monótona a ponto de não fugir dela ao menos para olhar ao lado?
Perdeu-se em reminiscências. Era, de novo, criança a implorar o colo da mãe; novamente menino a jogar bola com os garotos vizinhos e sabia o nome de cada um. Depois, adolescente ambicioso a esquecer do mundo em busca de seus interesses: primeiro mulheres; em seguida, o dinheiro. Agora esquecido, mal conversa com a esposa. Agora, egoísta, preso à esquerda de seu egocentrismo.
Viu alguém caminhando em direção a casa, por isso se escondeu. Não era o dono da casa que se aproximava, mas o carteiro que, vendo-o, lhe entregou um monte de papéis que ele passou rapidamente por debaixo da porta, lembrando depois que poderia ter descoberto, ali, o nome do vizinho.
Novamente perdido em recordações, lembrou-se do dia em que fora morar naquela rua. Como se tudo fosse magia, vivia a procurar em cada mesmice resquícios de novidade. Quando perdera a alma? Quando se tornou indiferente a tudo? Mudo, notou que se tornara um homem vazio, oco.
De repente, a porta se abriu: era o homem.
— Horácio, que surpresa! Que ventos o trouxeram à minha porta? – disse o homem sem nome, apenas homem.
— Pois é, o vento sempre a nos carregar!- respondeu com cuidado, para que o outro não notasse seu esquecimento -. Cá estou para transmitir importante notícia.
Dito isso, ficou mudo. Qual era mesmo a notícia? Novamente, perdeu-se em lembranças.
Era fim de tarde e o sol, matuto rapaz, cedia lugar à ventania. O vento se misturava às lembranças de Horácio, levando-as... Trazendo-as... Enfim, se lembrou. Da notícia, não do nome. Tratava de um jantar de amigos, reunião de pessoas que nem se conheciam. Qual o problema disso? Globalizou-se a indiferença.
O homem o convidou a entrar. Ofereceu-lhe xícara de café e pediu que o esperasse ali, enquanto ele buscava o maldito e inconveniente álbum de fotografias. No rádio, Bethânia interpretava uma música qualquer; na estante, Dom casmurro dividia espaço com vários outros clássicos. Esses gostos lembravam alguém, mas quem?
O homem voltou à sala com grosso álbum em mãos. Entregou-o a Horácio que começou a folhear. Nele, várias fotos do homem ao seu lado ainda rapaz. Nele, fotos desse rapaz com alguém no colo. Meu Deus! Era Leonora! A esposa com quem ele mal conversava nos braços de outro homem.
Que fazer? Enforcar o traste ali mesmo? Matar Leonora? Cafajestes! Claro, há tempos seu casamento ia mal, mas essa foto era dos tempos em que eles eram jovens amantes! Leonora de cabelos longos, cacheados, pendidos a altura da delgada cintura; ele rapaz sem jeito, pés descalços, alma livre.
Pálido de ódio, trêmulo, suava. Seus olhos eram os próprios olhos do demônio, ardendo vermelhos.  O coração retumbava veloz. E o outro falava algo a respeito de uma foto qualquer, da qual só ouviu o fim da frase:
—... Linda, não é verdade?- o outro só manejava a cabeça, concordando.
O mundo rodava. Bethânia cantava Negue, de Adelino Moreira; e, da estante, Machado sorria irônico. A visão turva, a cabeça zonza. De repente, o homem pergunta ainda apontando a foto:
—Ela também vai ao jantar? Há tempos não conversamos, ela e eu. Quando ela chega, eu parto... Que saudades sinto de minha irmã! - E essa fala foi como um soco no estômago de Horácio.



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