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De como nascem as histórias...

Perguntaram-me, certa vez, se desconheço o amor – pergunta boba, é verdade. Como eu poderia escrever se não amasse? É preciso amor para que nasçam as palavras: amor é um susto, chega quando menos esperamos – as palavras também. Então, para mim, não existe tese maior: é preciso amor ou o seu avesso, por qualquer coisa, para que seja possível gerar ou narrar histórias.
Sempre fui recluso, nunca sozinho. Sou amante, desde menino, das pequenas coisas, dos silêncios que edificam. Sempre gostei de ouvir histórias, sempre quis poder contá-las. Desde pequeno, sou ajuntador de sonhos; colecionador de memórias e momentos; sou grito pelas mãos, voz que fala no papel: eis o amor.
A primeira vez que escrevi, assim, por vontade própria, eu era garoto de uns seis anos de idade. Onde encaixei as palavras? No nome de minha avó, Clarice. Era o chamado acróstico, aquele molde de inicias que sustentam os versos. Foi amor desde a primeira palavra: ali, um novo significado para as minhas mãos; ali, nascia o sonho de reinventar a realidade.
Quando pequeno, recordo-me de acreditar ter, através das palavras, poderes sobre o curso da história: eu era Deus, dando vida às personagens; era o diabo, dando-lhes o sofrimento; era soberano, a dar sustento a vidas ou a podá-las de vez. Ainda sou esse Deus-diabo, mas em carne humana, refém de meus limites: sou instrumento pelo qual as histórias nascem, mas antes do parto, a gestação.
Falando nisso, onde será que são geradas as histórias? Ah, eu acredito que elas moram em um universo só delas: o interior humano. Lá descansam, aguardando o melhor momento para saírem. Muitas vezes, porém, elas morrem sem que a pessoa tenha tido o descuido de conhecê-las.
Breve história: lá no universo das palavras, há a segregação entre sombra e luz – elas não querem se misturar. Mas dependem uma da outra, disso não sabem. Da luz nascem os mais belos romances e contos de fada; das sombras, as histórias dantescas e poemas de escárnio surgem, vitoriosos. Mas a beleza nasce quando as palavras se rebelam contra a separação: elas dão-se as mãos, unido luz e sombra, e daí nasce o equilíbrio: não há mais a alienação quanto à realidade nem a ausência de sonhos frente ao real.
Há céu e inferno em mim, disso eu sei. Estão sempre em conflito e sou eu a apartá-los. Às vezes, não me suporto: o recipiente é pouco para tanta alma. Por isso, escrevo: quando em mim não encontro espaço, saio e procuro espaço no papel. Saímos, história e eu, solidários um ao outro: elas permitem que nelas eu me encontre e eu permito que habitem outros interiores, dando-lhes meio para correr o mundo. Daí nasce a certeza de histórias e eu sermos um só, embora sejamos muitos – e, justamente por essa pluralidade em carne singular, é que estamos sempre nascendo. 

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