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Amores imperfeitos

Veio me dizer que encontrou o homem da sua vida. Esta minha filha é mesmo assim, acredita em amores-perfeitos que nascem além do horizonte dos jardins e em príncipes encantados que, com seus cavalos brancos, chegam para amar as lindas donzelas. Mas, acontece que esse homem, Roberto, que ela faz questão de apelidar de Robertão, de príncipe não tem nada: levemente estrábico, de pernas bambas, desajeitado que só ele e, ainda por cima, franzino – assim me parece na foto que ela me mostra.
Eu também, nos meus tempos de mocidade, acreditava que a mais bela princesa me brotaria dos sonhos, mas quem me veio foi Matilde, mulher com quem me casei. Não que não a tenha amado: amei aquela mulher com a fidelidade de um cão – jamais a traí, jamais sequer pensei em outra. Quero dizer que ela era, assim como Roberto, desengonçada; mas era o melhor que eu poderia ter, porque também nunca fui bonito.
Roberto virá aqui em casa amanhã, provavelmente me tomará pela mão, dirá que foi um prazer me conhecer e eu concordarei, vai dizer que minha filha é a mais bela de todas as mulheres e com ela há de se casar. Sim, é o que todos dizem, não por que querem, mas porque minha filha assim os ensina: cresceu ouvindo este seu velho pai narrando que desta forma conquistou os pais de Matilde – grande mentira.
Breve história: os pais de Matilde só vieram a me conhecer depois de dois anos de nosso namoro, quando perderam de vez a ideia de que Matilde nascera para ser freira – acreditavam nisso porque ela jamais tivera olhos para homem nenhum.
Não vou julgar – em excesso – o caráter de Roberto sem primeiro conhecê-lo: talvez seja um homem bom, talvez seja realmente o homem da vida de minha filha. E de nada adiantaria julgá-lo, já que ela nunca levou a sério minhas opiniões a respeito de seus “amores-perfeitos”, mas nunca perdi a chance de dizer que eu tinha razão ao término dos relacionamentos.
Matilde sempre disse ser minha culpa nossa filha estar solteira, porque eu sempre julgara seus namorados por mim mesmo e essas coisas que esposas costumam dizer aos seus maridos. Talvez seja minha culpa mesmo, mas, apesar dos quarenta e lá vai pedrada anos de idade, minha filha será sempre a garotinha deste velho babão. Agora, que Matilde já se foi, estou ainda mais possessivo: tenho medo de ficar sozinho.
Ah, como Matilde e eu nos amávamos! Quando nasceu nossa filha, esse amor só cresceu: subíamos e descíamos com ela nos braços, levávamos a pequena menina para passear, contemplávamos a nossa cria com brilho nos olhos! As duas mulheres de minha vida sempre ali, ao meu lado! Depois, a morte e os Robertos desse mundo!
“Papai, não vá xingá-lo”, diz, avisando-me da importância desse homem na vida dela. Minha vontade é sim de xingar, de botar esse homem daqui para fora, mas não posso: do retrato, sobre a estante, o olhar de Matilde me desaprovaria. E, quando eu morrer, quem terá minha filha, se a privo do direito de amar? Tenho sorte de ela não ter nascido ao pai, clandestina e de namoros escondidos. Tenho sorte de ser amigo de meu pequeno rebento.
Amor é realmente coisa ingrata: faz arrepiar o coração e com que a saudade nos sufoque. Amor é essa coisa que me faz não esquecer a mãe que nunca conheci e que morreu enquanto eu nascia: amo-a e não a esqueço - ainda que não saiba qual seu rosto, sei quanto amor existia em seu ventre. Eu que cresci sem mãe, não quero definhar sem a filha.
Mas minha pequena não pode pagar pelas loucuras do pai, Matilde me ensinava. Amor também é entrega, ela quem me ensinou: entregava-me tudo de si, doava-se inteira, amava-me sem delongas. Agora é minha vez de fazer meu ato de entrega, de fazer o que ela sempre quis que eu fizesse: vou deixar minha filha voar, finalmente.
Não existem amores-perfeitos, dizia eu? Engano deste velho inconsequente: eles existem, na imperfeição e na incoerência dos lares daqueles que resolvem conviver apesar das diferenças todas. Matilde rendia-se toda, eu quase nunca. Agora, senil, entendo isso. Mas nosso amor foi o mais belo, o mais sublime. O mais sublime e belo que pôde ser.
Já é tarde e você já se cansou das lorotas que eu lhe conto? É um direito seu. Também já está na hora de eu tomar meu remédio para diabetes e mastigar alguma coisa. Mas deixe-me dizer só mais uma coisa: minha filha disse que, quando casar, vai me levar com ela – nunca quis se afastar de mim. Devo tê-la privado de muita coisa, mas ela ainda assim me é tão grata... acho que ela me ama. Eu a amo também.
Agora vá, preciso ir tomar meus remédios. Mande abraços ao seu filho. Ah, traga bolo amanhã, que eu tomo os remédios mais cedo. Vou lá com minha filha, que por enquanto ela ainda é só minha. Eu amo aquela pequena. Já disse isso? Sou velho, estou no meu direito; e amor é mesmo coisa que merece ser reafirmada todos os dias. Demonstrado também. Demonstrar: é o que vou fazer, porque sou pai, porque sou humano, porque sou amor... imperfeito.

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