Madame S.
Queria
sair de casa, do mundo, de dentro de si. Seu peito sustentava um coração
cansado dos limites da carne, que queria abandonar o corpo e dar um salto
mortal em direção à vida. Desta vez, cérebro e coração concordavam: o melhor
era mesmo fugir.
Madame
S. - o leitor que lhe atribua um nome - era sempre incompreendida, talvez por
ser adiantada ao seu tempo. Em seu peito, fervilhavam emoções que eram
conflitantes entre si, embora paralelas. Emoções extremas que, de tão
distantes, quase se tocam, tão longas e tão tênues as linhas que as separam.
Madame S. é misto de céu e terra, dor e amor, chão e mar, alegria e sua
ausência. Não, talvez não seja nada disso, talvez seja muito mais. Será que
também eu não a compreendo? Mulher tão natural quanto o próprio vento, pondo
minha alma a ninar!
Que
fique claro que não posso dizê-lo! Não posso sequer tentar fazê-lo! Quem quiser
compreendê-la que conheça primeiro a poesia, que toque e ouça melodias, que se
entregue à vida, que seja homem; mas no coração menino. Que aos pés da vida
peça perdão, que não lhe queira definir, e que se esqueça de todo o resto. Que
saiba entender seus olhos, pois estes lhe sorriem mais que os lábios e ferem
mais que palavras!
Ah,
madame que corre depressa, a fugir do mundo! Faça suas malas e vá morar em seu
coração! Coração acorrentado, fugindo do peito, sofrendo, gritando, procurando
você. Coração que não compreende, mas sente todo o universo em cada pulsar, que
quer fazer do exílio seu lar e da fuga seu alimento. Coração, hoje, sepulcral
abandono; amanhã, pleno desejo de vida, de canções e amores!
Oh,
mulher de garra, força! Mulher traduzindo todas as outras, fazendo rimas em
linhas tortas, tecendo histórias em horas mortas. Por isso, o desespero e o
desejo de sair: é tão imensa, completa em si, que chega a sentir vazio. Não
quer viver limitada, porque viver ultrapassa todos os limites e, essa Madame,
vive. E como vive!
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