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Infância


De repente, cessa-se o desejo de crescer. O cansaço do envelhecimento é inevitável: hora ou outra, todos iremos passar por isso. Eu, embora sedento de futuro, também sinto a ausência do tempo passado.
Infância: aquele era o tempo das tardes passadas brincando na areia, correndo nas ruas, transformando qualquer pedaço de madeira no maior brinquedo do mundo. E recusava os brinquedos comprados: ganhava-os apenas para abandoná-los num canto. Gostava mesmo dos piões e estilingues de meu avô, das carícias de minha avó, dos abraços de minha tia, travessuras com minhas irmãs, e beijos de minha mãe. Gostava do eterno!
Ser criança é a melhor coisa do mundo! É ser feto fora do ventre, feliz à toa e sempre sedento de novidade. E eu via o mundo com olhos humildes, sempre belo, eternamente novo! Não havia nada como as dores de agora, nada de irritações, de tardes de tédio, nada de buscar o para sempre oculto segredo da felicidade – era feliz e bastava.
Ah! Quem me dera ser eterno! Mas o ciclo da vida é este: nascemos, crescemos e depois a sepultura. Mas, entre nascer e morrer, há um tempo indefinido, com o qual podemos fazer o que quisermos. Sim, não basta nascer para estar vivo - é preciso experimentar a felicidade na simplicidade. Por isso, à criança: dá-lhe amor, antes de tudo, e ela será feliz. O adulto não, esse vive de acumular o inútil e a fartar-se do tempo: acorda, trabalha e dorme, depositando a esperança dos reencontros em um amanhã que talvez nem venha, para só depois entender que a vida se faz no agora e que só o amor traz a felicidade – ainda assim, sem excessos.

Recordo-me que, quando criança, os perdões vinham sempre à galope, hoje demoram mais; era amante das aproximações, hoje vivo de lonjuras; gozava da liberdade, agora me faço refém das rotinas. Mas não matei a criança que já fui: ela ainda vive em mim e, vez ou outra, pega-me pelas orelhas e me faz contemplar o céu. É decidida: faz-me dar o perdão que quero negar, adorar o conforto dos abraços... faz-me viver! E, nesses momentos, sou eterno aprendiz do tempo, eterno menino-adulto, para sempre nos braços da vida e apostando corrida com a sorte! Daí nasce a máxima: feliz aquele que se permite amadurecer de mãos dadas à criança que já foi – esse não envelhece.

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Há o medo;
Há o descaso e o desdém.

O tempo não existe.
Não há senão a grande ilusão da existência
Que se equilibra entre a razão e a demência,
Entre a pureza e a indecência.
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Cantássemos sem a preocupação de desafinar,
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SINAIS DOS TEMPOS

Os olhos foram comidos Comidos foram os ouvidos Costurada a boca Roubados os sentidos A coisa agora é outra A coisa agora é rouca É louca a coisa pouca É tanta gente trouxa É tanta mente vaga E as vagas andam poucas A inteligência vazia Sucumbe à tecnologia E um smartphone sabe o que não sabe o homem E, no mundo, há tanta fome E tantos que descartam o que nem consomem E tanto homem no ponto Sentado feito tonto Esperando seu ônibus chegar Rodeado de tanta gente Incapaz de conversar E, se conversa, mente: Em quem se pode acreditar? E o ouvido no fone E os olhos na tela E o toque é touch E o touch é screen Alguém, por favor, olha para mim Que olhos? No rosto duas marcas cicatrizadas Alguém, por favor, diga algo para mim Que boca? A agulha costura o silêncio Alguém, por favor, dê ouvidos para mim? Que ouvido? Há tempos já foi consumido
É o fim.

Discurso Fúnebre

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Não sei o que queres de mim Não sei se me queres assim Não sei se é este meu fim: Morrer por amar-te, Ser o brim de tua arte, Artesanato em tuas mãos, Dos pés, o teu chão.
Chegaste como quem nada quer e Arrasaste meu coração, mulher Fizeste-me escabelo de teus pés Fizeste-me laço em teus cabelos Fizeste-me canto em teus ouvidos Fizeste-me um e foste dez!
Deferiste os mais duros golpes, Foste baixa e ferina E eu, que nem sei brincar, Recebi a espada de tua esgrima. Feriste a um teu, fizeste teu galope Foste cobra, deste um bote Do poema, foste o mote Mataste a esperança ínfima Fizeste nascer a fonte Lágrima Deste origem à lástima Despiste tua máscara Meu coração esmiuçara E tinhas a voz tão calma E foste algoz, bicho feroz Devoraste minha alma.
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