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Esperança


            Não deu certo. O que poderia fazer? Tudo quanto foi preciso eu fiz, não há remorsos. Passei seis meses com ele, o homem que meu tio arranjou. Sim, nossa união foi arranjada, não havia outro jeito: migrei de outra cidade para cá depois que meu primeiro marido, meu amor, faleceu. Deixou-me com dois filhos, mas com uma pensão da qual não posso reclamar. Não sou instruída, por isso conto minha vida: para que a escreva para essa mulher que não sabe fazê-lo.
            Meus parentes roubavam-me o dinheiro, por isso vim. Meu tio e um homem me esperavam. No começo tudo funcionava bem: as crianças sempre foram bem tratadas, o problema éramos nós dois: brigávamos com frequência, a mesma em que ele me pedia dinheiro emprestado - quase sempre. Não deu para ficarmos juntos. Foi preciso dar um basta: peguei meus filhos, minhas coisas e saí.
            Na casa do tio dormíamos e comíamos mal, péssimos tempos, mas necessários. Não passei muito tempo com ele, que logo me oferecia a outro homem. Eu fui. Sim, fui porque não havia outra forma: não sei e nem consigo viver só, não tenho autonomia em minha vida. Fui e vou com quantos mais ele me arrumar.
            Com esse outro homem as coisas parecem que vão bem, mas já passei por isso outras vezes: os inícios não definem os meios, não nesses casos. O que vem adiante não sei, mas quem sabe, afinal? O amanhã não cabe em previsões, é incerto, é imprevisto, somos nós. Somos nós, mesmo quando nos foge ao alcance, somos nós porque nós o fazemos: não controlamos tudo, mas a maneira como lidamos com o descontrolado fazem a diferença.
            Meus filhos é que mais me preocupam: tenho medo de que sofram. Por eles luto com todas as forças, mesmo com as que não tenho. Por eles não me entrego às garras dos parentes. Por eles eu fujo, ou me arranjo. Por eles luto, sobrevivo, choro e grito: quero que sejam melhores que eu.

            De casa em casa, arranjo em arranjo, de amor a dor: é assim que vivo, nesse ponto é que sou eu: mais imprevisível que o tempo, mais escorregadia que quiabo, astuta como serpente, mas, às vezes, fraca como um cordeiro. Há quem me chame de macheira, de incerta, não me importo: o que chamam de fraqueza eu chamo de esperança.

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